flexM4I > abordagens e  práticas > Arquitetura organizacional na servitização (versão 2.0)
Autoria: Henrique Rozenfeld ([email protected]) com o apoio de agentes de IA generativa (leia mais)

A servitização exige uma revisão profunda da arquitetura organizacional das empresas orientadas a produtos. Esta seção apresenta como estrutura, processos, governança, cultura, papéis, competências e mecanismos de decisão precisam evoluir para sustentar serviços e soluções complexas. Discute modelos organizacionais, trajetórias de mudança e riscos de desservitização, oferecendo um quadro integrado para orientar decisões de transformação.

Esta seção é complementar à seção principal sobre servitização.

Resumo executivo

Figura 1433: lógica da seção sobre a arquitetura organizacional na servitização (clique na figura para abrir em outra aba)

A servitização exige decisões estruturais e organizacionais profundas. Este resumo apresenta, de forma direta, os oito blocos analíticos que compõem esta seção, mostrando o que cada tópico significa e quais aspectos principais ele cobre.

Servitização como transformação organizacional
Este tópico descreve como a mudança de lógica — de produto para serviço — gera tensões organizacionais, culturais e operacionais que precisam ser geridas no longo prazo.

  • A lógica de produto convive com a lógica de serviço, criando tensões estruturais.
  • A tensão entre lógicas não desaparece; ela precisa ser administrada por mecanismos estruturais, culturais e de coordenação.
  • A transformação é contínua, não ocorre em um único movimento.
  • Ambidestria torna-se necessária para operar ofertas consolidadas enquanto desenvolve serviços avançados.
  • Pressões internas e externas moldam a velocidade e a direção da mudança.

Capabilidades organizacionais exigidas antes e depois da virada para serviços
Apresenta as competências corporativas necessárias para entregar serviços técnicos, avançados e orientados a resultados — e como elas evoluem ao longo da servitização.

  • Capabilidades comerciais, operacionais e digitais se tornam determinantes.
  • Competências variam conforme o tipo de serviço e o nível de complexidade da oferta.
  • A ausência dessas capabilidades limita a evolução e aumenta riscos de falhas operacionais.
  • Capabilidades maduras reduzem conflitos entre áreas e melhoram a entrega ao cliente.
  • A construção das capabilidades é evolutiva: exige aprendizagem acumulada, revisão contínua dos processos e realinhamento de responsabilidades.

Elementos de design organizacional afetados pela servitização
Este tópico explica quais elementos da arquitetura organizacional precisam ser ajustados para comportar a lógica de serviço e evitar fricções internas.

  • Estrutura, governança, cultura, incentivos e processos são impactados pela virada para serviços.
  • Cada elemento exige decisões explícitas para garantir alinhamento interno.
  • Incoerências entre elementos geram sobrecarga, conflitos e perda de eficiência.
  • Outros frameworks da literatura ampliam a visão com elementos adicionais (ex.: governança de portfólio, sistemas de controle, gestão de competências).
  • As escolhas de design organizacional geram efeitos sistêmicos: alterar um elemento pressiona ajustes nos demais para manter coerência interna.

Modelos organizacionais para servitização
Mostra as diferentes formas de organizar a empresa para entregar serviços — da integração total a estruturas corporativas dedicadas.

  • Cinco modelos principais: integrado, unidade dedicada, híbrido, estruturas orientadas a segmentos/contas, subsidiária corporativa.
  • Cada modelo resolve um tipo distinto de tensão entre produto e serviço.
  • A escolha depende da maturidade da empresa, do escopo das ofertas e da estratégia corporativa.
  • Cada modelo exige mecanismos de coordenação específicos entre produto, serviço e digital.
  • Modelos podem coexistir quando o portfólio de serviços é heterogêneo, ou seja, as empresas podem operar dois ou mais modelos simultaneamente.

Caminhos evolutivos típicos da servitização
Este tópico apresenta padrões encontrados na literatura sobre como empresas ampliam seu portfólio de serviços ao longo do tempo.

  • Evolução é contingencial e não segue uma sequência fixa.
  • Empresas começam com serviços técnicos integrados e avançam para modelos mais especializados.
  • Conflitos estruturais surgem e precisam ser mitigados por ajustes progressivos.
  • Pressões de mercado e clientes influenciam fortemente o ritmo das transições.
  • A ampliação do escopo de serviços exige ajustes progressivos na estrutura, nas capabilidades e na governança.

Trajetórias organizacionais da servitização
Diferente dos “caminhos evolutivos”, este tópico mostra como as empresas migram entre modelos organizacionais — e como cada migração exige reconfigurações.

  • Empresas percorrem trajetórias reconhecíveis de ampliação de escopo.
  • Cada transição — integrada → híbrida → dedicada → corporativa — aciona mudanças nos elementos da arquitetura organizacional por meio do processo de design organizacional.
  • As trajetórias não são lineares: empresas avançam, estabilizam e revisam modelos conforme aprendem.
  • Clientes de grande porte com alto poder contratual influenciam diretamente a configuração do provedor de PSS.
  • Trajetórias devem ser revisadas periodicamente para evitar desalinhamentos e retrocessos.

Riscos de desservitização e como evitá-los
Explica por que algumas empresas recuam depois de avançar em serviços — e como evitar esse movimento.

  • Falhas estruturais, conflitos internos e falta de capabilidades induzem retrocessos.
  • Incentivos desalinhados reforçam a lógica de produto e desmobilizam o movimento de serviço.
  • Clientes percebem deterioração de entrega, gerando desistências e perda de credibilidade.
  • A desservitização pode ocorrer mesmo sem eliminar serviços, quando a estrutura retorna ao predomínio da lógica de produto.
  • Evitar a desservitização exige estrutura adequada, KPIs integrados e governança conjunta.

Guia prático para empresas orientadas a produtos
Este tópico sintetiza as decisões práticas que a empresa precisa tomar para estruturar a organização para serviços — antes, durante e depois da virada.

  • Diagnosticar tensões entre produto e serviço e mapear capabilidades críticas.
  • Selecionar o modelo organizacional mais adequado ao escopo da oferta.
  • Definir papéis, responsabilidades e limites claros para garantir accountability no negócio de serviços.
  • Criar mecanismos de coordenação, métricas integradas e governança conjunta.
  • Estabelecer ciclos regulares de revisão da arquitetura organizacional e das capabilidades conforme o portfólio evolui.

Antes de começar: verifique o que você já sabe sobre este tema

Depois de ler: verifique o que você aprendeu

Responda estas questões após a leitura completa desta seção. Elas cobrem nuances e decisões práticas que só fazem sentido depois do conteúdo.

Introdução

A servitização transforma uma empresa orientada a produtos em uma organização capaz de desenvolver, entregar e operar serviços, integrados ou não aos produtos existentes. Trata-se de um processo de mudança contínua, que altera a forma como a empresa cria valor, se relaciona com os clientes e coordena suas operações.

Nesta seção, examinamos a arquitetura organizacional necessária para apoiar a servitização, considerando elementos como estrutura, processos, papéis, competências, cultura, governança e mecanismos de decisão.

Esses elementos compõem apenas uma parte da transformação maior: a arquitetura organizacional está inserida dentro de uma arquitetura de negócio mais ampla, que envolve estratégia, proposta de valor, ofertas, modelo de receita e posicionamento no ecossistema. Aqui, o foco recai especificamente na dimensão organizacional dessa mudança, que abrange os elementos citados acima.

Retomamos inicialmente a definição central de servitização apresentada na seção principal da flexM4i. A partir dela, discutimos como a transição de uma lógica baseada em produtos para uma lógica baseada em serviços reorganiza a empresa em múltiplas dimensões e abre diferentes caminhos possíveis de configuração e evolução. 

Esses caminhos serão analisados nos tópicos seguintes, à luz de capabilidades organizacionais, modelos estruturais, trajetórias de mudança e riscos comuns enfrentados por empresas orientadas a produtos que avançam em serviços.

Definição de servitização

A servitização é um processo de transformação de uma empresa orientada a produtos em uma empresa orientada à oferta de serviços.

A partir da definição do objeto da inovação (o quê), duas opções (como) podem emergir, como ilustra a próxima figura.

Figura 339a: ilustração da definição da servitização 

  1. O design e oferta de serviços baseados em competências internas, que dá origem a serviços puros (como engenharia, software, simulação, ou análise de dados), sem necessariamente envolver um produto físico.
  2. O desenvolvimento (design) e oferta de um sistema produto-serviço (PSS), em que produtos, serviços, infraestrutura, organização, pessoas e processos passam a ser integrados em uma única proposta de valor.
Nesta seção discutiremos principalmente a criação de um PSS.
Leia a definição completa de servitização, na seção principal sobre esse assunto

A lógica desta seção

Figura 1433: lógica da seção sobre a arquitetura organizacional na servitização (clique na figura para abrir em outra aba)

Mantenha a figura aberta na outra aba para acompanhar a leitura desta seção

A figura anterior sintetiza a lógica desta seção. A servitização é tratada como uma transformação organizacional que altera lógicas, tensões e ritmos internos.

A partir daí, discutimos as capabilidades necessárias para essa virada, os elementos de design organizacional afetados e os modelos estruturais possíveis para integrar produtos e serviços. 

Esses componentes moldam as trajetórias organizacionais das servitização, que orientam escolhas estruturais ao longo do tempo

Esta  seção se encerra com um guia prático para empresas orientadas a produtos que buscam evoluir seus serviços de forma sustentável.

Seções da flexM4i relacionadas

Servitização como transformação organizacional

A servitização é uma reconfiguração que afeta:

Por isso, a transição para serviços não pode ser tratada como uma iniciativa isolada em uma área ou como uma evolução natural das atividades de pós-venda.

Na servitização, a organização descobre que estruturas atuais raramente oferecem condições adequadas para administrar contratos de longo prazo, acordos de desempenho (SLA) ou ofertas orientadas a resultados.

Características da mudança organizacional

A mudança começa quando a empresa deixa de estar orientada exclusivamente para o ciclo transacional da venda de produtos e passa a operar com compromissos contínuos de desempenho, disponibilidade e resultado ao longo do ciclo de vida dos ativos e da relação com o cliente.

Esse deslocamento altera prioridades, desafia práticas estabelecidas e redefine a base que sustenta as decisões empresariais. É nesse ponto que a organização descobre que estruturas concebidas para capturar margem na venda inicial do equipamento e eficiência interna raramente oferecem condições adequadas para administrar contratos de longo prazo, acordos de desempenho (SLA) ou ofertas orientadas a resultados.

As duas lógicas em tensão: produto e serviço

A transformação organizacional decorrente da servitização revela uma tensão estrutural entre duas lógicas que coexistem, mas que respondem a mecanismos de valor distintos: 

  • Lógica de produto: privilegia eficiência interna, escala, padronização e metas comerciais de curto prazo orientadas à transação. 
  • Lógica de serviço: exige engajamento contínuo, proximidade com o cliente, resolução de problemas em tempo real e geração de valor distribuída ao longo do ciclo de vida.

Sem ajustes estruturais, essas lógicas competem entre si e criam tensões que dificultam a consolidação do negócio de serviços (Peillon, 2021).

Quando a empresa passa a oferecer serviços avançados ou sistemas produto-serviço, essas lógicas deixam de ser apenas diferentes: tornam-se concorrentes por:

A consequência direta é o surgimento de conflitos internos sobre:

  • alocação de equipes, 
  • uso de dados do cliente, 
  • estratégias de venda, 
  • precificação e 
  • responsabilidades sobre o desempenho contratado.

Essa tensão não pode ser eliminada, mas precisa ser administrada.

Ela exige mecanismos específicos de coordenação, ajustando papéis, processos de tomada de decisão e indicadores de desempenho. Sem esses ajustes, a lógica de produto tende a dominar, enfraquecendo a capacidade da empresa de sustentar contratos de longo prazo ou operar soluções integradas.

Essa interpretação é consistente com Peillon (2021), que mostra que as empresas alternam e combinam mecanismos de separação e integração para administrar essas tensões ao longo do tempo.

Uma discussão mais profunda e completa sobre essa tensão está na seção da flexM4i “Paradoxos da servitização”.

Transformação dinâmica

A transformação organizacional associada à servitização não é estática. Ela ocorre em etapas e se aprofunda conforme a empresa amplia seu portfólio de serviços.

Mudanças estruturais que fazem sentido no estágio inicial — para dar foco, proteger capacidades emergentes ou acelerar o desenvolvimento de ofertas — podem se tornar limitadoras quando a organização passa a entregar sistemas integrados produto-serviço ou serviços baseados em desempenho. 

Por essa razão, a estrutura organizacional precisa ser revisada periodicamente, acompanhando (Peillon, 2021):

  • a maturidade das ofertas,
  • o perfil dos clientes,
  • o crescimento do negócio de serviços e
  • o grau de integração requerido entre produto, serviço e componentes digitais.

A estrutura organizacional precisa ser revisada periodicamente

Essa perspectiva dinâmica é essencial para orientar se a estrutura deve ser separada, integrada ou híbrida, conforme será detalhado no tópico seguinte.

Ambidestria organizacional

A convivência simultânea das lógicas de produto e de serviço cria um contexto em que a organização precisa operar de forma ambidestra: 

  • manter a eficiência, padronização e previsibilidade típicas da lógica de produto 
  • enquanto desenvolve, adapta e entrega serviços que exigem interação intensa, personalização e capabilidade  de resposta rápida. 

Essa coexistência de orientações distintas força a empresa a equilibrar a exploração de novos modelos de serviço (explore) com a exploração eficiente dos modelos já consolidados de produto (exploit), gerando tensões que precisam ser absorvidas pela estrutura, pelos processos e pelos mecanismos de coordenação (Magnusson & Odhe, 2022).

Observe que as ações de explore e exploit trazem o conceito de ambidestria organizacional, mas não são os mesmo da ambidestria no conceito da gestão da inovação, tratada na seção “Ambidestria organizacional”.  

Evidências recentes indicam que a capabilidade ambidestra depende de habilitadores organizacionais como, competências digitais, integração de sistemas e mecanismos de coordenação. A servitização exige justamente essa capacidade de gerenciar lógicas conflitantes e operar em múltiplos ritmos organizacionais (Classen & Friedli, 2022).

Em um estudo quantitativo, Sun & Zhao (2023) comprovam que a ambidestria tem um componente cultural relevante: organizações que combinam valores associados à exploration e à exploitation apresentam melhor desempenho na inovação em serviços.

Além dos desafios estruturais, estudos longitudinais mostram que a ambidestria em servitização também é cognitiva e cultural. Equipes de produto e equipes de serviço operam com mentalidades, métricas e linguagens distintas, gerando conflitos que precisam ser administrados ao longo do tempo. A ambidestria, portanto, é um processo dinâmico de ajustes sucessivos, no qual a organização alterna entre separação e integração das atividades conforme amadurece sua oferta servitizada (Magnusson & Odhe, 2022).

Essas tensões se materializam nas decisões de design organizacional que serão discutidas nos tópicos seguintes. Essas escolhas permitem transformar a convivência entre as duas lógicas em um arranjo organizacional viável, consistente e sustentável.

Capabilidades organizacionais exigidas antes e depois da virada para serviços

A servitização requer o desenvolvimento de um conjunto de capabilidades que não fazem parte do núcleo tradicional de empresas focadas em produto.

O que é capabilidade organizacional?
Segundo o glossário da flexM4i, “capabilidade organizacional é o que a empresa é capaz de realizar”. Ela envolve competências, recursos, processos e engloba as capabilidades dinâmicas e ordinárias.
Como a servitização é tratada na flexM4i como uma abordagem de inovação, sugerimos a leitura da seção sobre Gestão da inovação e capabilidades da empresa, que aprofunda essa discussão

Durante a servitização

Antes da virada para serviços, a empresa precisa ampliar sua capabilidade de entender o ciclo de vida dos clientes, mapear oportunidades de serviço e preparar processos que possam operar com horizontes de tempo diferentes dos ciclos comerciais de produtos.

Quando as ofertas de serviços já estiverem em operação

Depois da virada, surgem capabilidades ainda mais específicas, relacionadas à operação contínua e à entrega de resultados contratados. Papéis e responsabilidades precisam ser redesenhados. Funções antes periféricas tornam-se centrais, como:

  • gestão de contratos complexos,
  • engenharia de aplicação,
  • monitoramento de ativos, 
  • engenharia de campo,
  • operação remota,
  • atendimento avançado ao cliente para solução de problemas, 
  • captura e análise de dados e 
  • operação distribuída.

Essa alteração de centralidade implica rever processos, fronteiras organizacionais e competências críticas.

Esses papéis exigem competências diferentes das associadas ao ciclo tradicional de produto e, muitas vezes, demandam novos perfis profissionais.

Essas capabilidades sustentam ofertas que dependem da integração entre produto, serviços presenciais, serviços digitais e finanças, exigindo coordenação entre áreas orientadas à entrega de valor.

Necessidade de capabilidades dinâmicas

Para sustentar a oferta de serviços, a empresa precisa fortalecer sua capabilidade de adaptação. À medida que os contratos evoluem, que o perfil dos clientes muda e que a maturidade tecnológica aumenta, novas exigências surgem. Isso demanda estruturas que possam incorporar rapidamente melhorias operacionais, novos recursos digitais, ajustes no modelo de receita ou mudanças no escopo das soluções.

Essas capabilidades exigem investimento, aprendizagem acumulada, integração entre áreas e revisão contínua dos mecanismos de tomada de decisão. Empresas que tratam essa construção como um processo evolutivo (e não como um projeto pontual) tendem a se posicionar melhor na fase pós-servitização.

Segundo o glossário da flexM4i, capabilidades dinâmicas são as habilidades da empresa de “reconfigurar, redirecionar, transformar e moldar adequadamente e integrar competências essenciais existentes com recursos e estratégias externas e ativos complementares para enfrentar os desafios de um mundo de concorrência e imitação pressionado pelo tempo e em rápida mudança”

Em ofertas digitalizadas, capabilidades associadas à coleta, análise e interpretação de dados tornam-se particularmente relevantes e exigem cooperação com parceiros tecnológicos. Sklyar et al. (2019) destacam que capabilidades de digital servitization frequentemente se distribuem entre a empresa, clientes e fornecedores especializados, o que altera o desenho interno das responsabilidades.

Veja o tópico mais adiante “Integração com o ecossistema”.

Elementos de design organizacional afetados pela servitização

A servitização altera pilares fundamentais da arquitetura organizacional. As decisões sobre estrutura, processos, papéis, incentivos e sistemas de informação deixam de ser meros ajustes internos e passam a influenciar diretamente a capabilidade da empresa de entregar ofertas, operar contratos de longo prazo e sustentar sistemas produto-serviço (PSS).

Design organizacional versão arquitetura organizacional

Os termos “arquitetura organizacional” e “design organizacional” são usados de forma intercambiável. Porém na flexM4i, adotamos que o processo de “design organizacional” resulta em uma “arquitetura organizacional”, como ilustra a próxima figura.

Figura 1212: Design organizacional (processo) resulta em uma arquitetura organizacional

No entanto, utilize o termo mais alinhado com a cultura de sua empresa. Você pode denominar o resultado como design organizacional.

A arquitetura organizacional é um framework que engloba tanto as estruturas formais quanto as relações informais dentro de uma organização. Ela abrange os blocos de construção intangíveis, como as dinâmicas de grupo e o comportamento humano, e reflete a coleção de estruturas e relacionamentos que conferem à organização sua funcionalidade e “sentimento” particular.

A próxima figura ilustra os elementos de uma arquitetura organizacional.

Figura 1213: elementos da arquitetura organizacional suas inter-relações e a estratégia
Adaptado de: Galbraith, J. R. (2014)

Na seção “Arquitetura organizacional”da flexM4i, os elementos da figura anterior estão descritos. Observe que a arquitetura organizacional esta inserida na arquitetura de negócios, que é mais ampla. Seus elementos são orientados pela estratégia empresarial.

Importância do design organizacional

Na servitização, o design organizacional não é apenas um exercício de definição de estruturas formais, mesmo porque elas dependem dos fatores ilustrados na figura anterior.

O design organizacional envolve escolhas intencionais sobre como a organização deve operar para sustentar ofertas baseadas em serviços, articulando papéis, fluxos de decisão, mecanismos de coordenação entre as pessoas e liderança, considerando os processos, a governança e os indicadores e incentivos. O clima organizacional, que depende de outros fatores, também deve ser pensado. Indicamos também que o layout dos ambientes de trabalho influenciam o clima organizacional.

Leia mais na flexM4i sobre a relação entre Clima organizacional e estilos de liderança, que influencia os comportamentos das pessoas da organização e, portanto, da servitização. 

O design organizacional é um processo dinâmico, que precisa ser revisado à medida que a empresa avança na integração de serviços.

Estrutura organizacional

A estrutura é o elemento que mais claramente expressa como a empresa pretende operar serviços e soluções. As configurações variam ao longo da maturidade e refletem a intensidade da lógica de serviço dentro do negócio.

Mudanças mais frequentes incluem:

  • Reorganização das unidades de negócio, criando estruturas dedicadas ao crescimento dos serviços quando a lógica dominante continua sendo a de produto.
  • Agrupamento das funções de serviço (portfólio, engenharia de aplicação, operação, contratos) em uma única unidade para gerar foco e visibilidade interna.
  • Modelos híbridos, nos quais o front-end é integrado (uma face única para o cliente) e o back-end é composto por áreas especializadas de produto, serviço e digital.
  • Modelos orientados a contas ou segmentos, conectando produto e serviço em torno de necessidades específicas de clientes relevantes.
  • Revisões periódicas da estrutura, acompanhando a complexidade crescente dos serviços e a necessidade de maior integração ou especialização.

Essas decisões estruturais devem considerar a tensão entre produto e serviço e o risco de cada lógica neutralizar a outra. A estrutura define como prioridades são alocadas e como os serviços ganham legitimidade dentro do negócio (Peillon, 2021).

Este tópico trata apenas dos elementos gerais de estrutura impactados pela servitização. As configurações organizacionais — separadas, integradas ou híbridas — serão apresentadas em detalhe mais adiante, no tópico “Modelos organizacionais identificados na literatura”.

Processos, governança e mecanismos de coordenação

A servitização exige redesenho de processos e criação de novos mecanismos de coordenação que antes não eram necessários no modelo baseado em produto.

Impactos mais frequentes incluem:

  • Novos processos transversais, que conectam engenharia, vendas, atendimento, operação de campo, monitoramento de ativos e análise de dados.
  • Governança mais clara sobre decisões críticas, como evolução do portfólio de serviços, definição de SLAs, precificação, gestão de riscos compartilhados e priorização de clientes.
  • Comitês de portfólio voltados para soluções, integrando produto, serviço e digital na mesma lógica de decisão.
  • Rituais de coordenação entre áreas que antes operavam de forma isolada, especialmente vendas, pós-venda, engenharia e financeiro.
  • Pontos formais de integração, que evitam que a lógica de produto domine decisões que deveriam ser orientadas ao desempenho contratado.
  • Conexão com governança da inovação, pois a criação e evolução das ofertas de serviço e TSS depende de decisões estratégicas semelhantes às de inovação corporativa.

Processos e governança têm função crítica: impedir que tensões estruturais entre produto e serviço se transformem em obstáculos ao desempenho comprometido com o cliente.

Leia mais na flexM4i sobre Governança da inovação. Este link é da seção principal que remete para outras seções relacionadas ao mesmo tema, com destaque para:
Governança da inovação – Relação com a governança corporativa, papéis e modelo
Governança da inovação – Como implementar, barreiras, premissas e dicas

A digitalização da servitização  introduz fluxos de dados contínuos entre clientes, parceiros e unidades internas. Isso exige processos capazes de operar em rede, e não apenas dentro da fronteira organizacional tradicional (Sklyar et al., 2019).

Integração com o ecossistema

A servitização digital expande as fronteiras organizacionais, tornando a criação e captura de valor altamente dependente de recursos, informações e capacidades de atores externos (Sklyar et al., 2019).

Para garantir o alinhamento operacional e a coerência das soluções, é essencial estabelecer mecanismos explícitos de integração com o ecossistema, que inclui: 

  • fornecedores de tecnologia;
  • provedores de conectividade;
  • plataformas digitais;
  •  distribuidores;
  •  parceiros de campo e 
  • clientes. 

Na integração com o ecossistema, os seguintes aspectos devem ser considerados:

  • Interfaces organizacionais com parceiros: definição clara dos pontos de contato e integração técnica (sistemas, APIs), operacional (logística, campo) e contratual (SLAs, responsabilidades compartilhadas) com parceiros.
  • Governança interorganizacional: criação de mecanismos para assegurar o alinhamento de decisões em um ambiente de dependência mútua, incluindo governança de plataformas, padrões de dados/cibersegurança, e fóruns formais de decisão conjunta. 
  • Funções internas específicas para o ecossistema: criação ou fortalecimento de funções especializadas para orquestrar e articular com o ecossistema, como gestão de integrações, de parceiros e de plataformas, e operação de dados distribuídos.
  • Impacto sobre os processos internos: adaptação de processos tradicionais para operar em rede, incorporando fluxos de informação contínuos e colaborativos (ex: solução de problemas, sincronização de sistemas e gestão conjunta de incidentes)

Em contextos mais avançados de servitização digital, o papel da empresa dentro do ecossistema pode evoluir. Sklyar et al. (2019) descrevem posições estratégicas que não configuram modelos organizacionais internos, mas formas de atuação no ecossistema: 

  • serviços que apoiam o produto (foco); 
  • serviços para conectar e orquestrar a colaboração  entre atores do ecossistema; 
  • desenvolvimento de uma plataforma digital que facilita as interações e a co-criação de valor entre todos os participantes do ecossistema.

Pessoas: papéis, competências e incentivos

A servitização impõe uma reconfiguração profunda nos papéis, competências e sistemas de incentivo da organização.

Impactos sobre papéis e competências:

  • Mudança de Foco: Funções periféricas (como as listadas em capabilidades organizacionais exigidas) tornam-se centrais. As equipes de campo ganham um papel mais estratégico na entrega de valor e no relacionamento contínuo.
  • Novo perfil profissional: Profissionais devem ser mais orientados a solução, integrando conhecimento técnico, habilidades de relacionamento e uma visão do ciclo de vida do cliente.
  • Competências críticas: Desenvolvimento de competências em negociação, colaboração e gestão de riscos, essenciais para operar em contratos de longo prazo e compromissos de desempenho.

Incentivos e KPIs

Sistemas de recompensa baseados exclusivamente em volume e margem do produto geram distorções em modelos orientados a resultados e contratos de longo prazo. O sistema de medição e incentivo deve ser ajustado para incluir indicadores focados no desempenho do serviço e no valor para o cliente:

  • Indicadores de Serviço e Ativo: Confiabilidade dos ativos e cumprimento de SLAs.
  • Perspectiva do Cliente: Custo Total de Propriedade (TCO) – englobando aquisição, operação, manutenção, risco e coordenação do cliente –, satisfação e taxa de churn (perda de assinantes/contratos).
  • Performance do Contrato.

Requisitos de alinhamento

A empresa precisa ajustar seus sistemas de avaliação para evitar desalinhamentos que comprometam a entrega dos serviços.

Após a servitização, uma empresa que provê um PSS deve constantemente avaliar, na perspectiva do cliente, se a solução:

  • realmente reduziu falhas,
  • melhorou disponibilidade (uptime),
  • diminuiu consumo,
  • reduziu a necessidade de coordenação e supervisão interna,
  • melhorou a previsibilidade,
  • reduziu paradas,
  • diminui o risco operacional.

Sem o alinhamento consistente entre metas individuais, coordenação e o valor da solução ofertada (do ponto de vista do cliente), a organização tende a manter comportamentos do paradigma de produto, comprometendo a efetividade do serviço.

Cultura organizacional

A transição para serviços exige uma mudança cultural profunda. A cultura tradicional dos fabricantes, orientada à eficiência interna e à execução de processos padronizados, precisa incorporar:

  • relacionamento contínuo com clientes, 
  • resolução colaborativa de problemas e 
  • compromisso com resultados que dependem de fatores fora do controle direto da empresa. 

Isso altera comportamentos esperados, práticas de liderança e o próprio ritmo de trabalho das equipes. 

Líderes passam a ter um papel mais ativo na coordenação de áreas, na mediação de conflitos entre as lógicas de produto e serviço e na promoção de práticas que reforcem proximidade com o cliente, responsabilidade compartilhada e aprendizagem contínua. 

Sem esse realinhamento cultural, as capabilidades de serviço não se consolidam e os incentivos perdem efetividade.

Essas mudanças culturais não se consolidam apenas pela definição de estruturas, processos e incentivos. A transição para serviços exige um processo deliberado de gestão da mudança, envolvendo mobilização da liderança, comunicação contínua, reforço de comportamentos críticos e mecanismos de aprendizagem organizacional

Para aprofundamento, consulte a seção de Gestão da Mudança da flexM4i, onde esses aspectos são tratados de forma estruturada.

Arquitetura da decisão e critérios de priorização

A servitização altera a lógica pela qual decisões são tomadas. Processos concebidos para ciclos transacionais curtos precisam ser substituídos por mecanismos que considerem horizontes mais longos, maior incerteza e compromissos de desempenho assumidos ao longo de todo o ciclo de vida do produto e da relação com o cliente.

Principais mudanças incluem:

  • Horizontes de decisão mais longos, que consideram impacto de escolhas técnicas, comerciais e operacionais sobre contratos plurianuais e resultados cumulativos.
  • Maior incerteza operacional, exigindo avaliações contínuas de risco, cenários e trade-offs.
  • Custos distribuídos no ciclo de vida, que demandam decisões que conciliem curto e longo prazo, evitando otimizações locais que aumentem o custo total da operação do cliente ou comprometam o desempenho contratado.
  • Riscos compartilhados com o cliente, o que impõe análises mais criteriosas sobre responsabilidade, capacidade de resposta e impactos financeiros de falhas.

Essas novas condições tornam insuficientes os fluxos decisórios tradicionais. A empresa precisa revisar:

  • responsabilidades pela tomada de decisão,
  • critérios de priorização,
  • mecanismos de controle, e
  • pontos de escalonamento para decisões que envolvem risco técnico, financeiro ou reputacional.

A arquitetura da decisão passa, portanto, a ser um componente central do design organizacional na servitização, garantindo coerência entre compromissos assumidos, capacidades internas e resultados esperados pelos clientes.

Sistemas de decisão, informação e controle

Sistemas de decisão e informação são a infraestrutura invisível do design organizacional. Sem eles, não é possível entregar serviços de alto desempenho ou operar contratos de longo prazo.

Principais transformações incluem:

  • Critérios de decisão ampliados, considerando custo total do cliente, horizonte de contrato, riscos compartilhados e resultados previstos ao longo do ciclo de vida.
  • Sistemas de informação integrados, que conectam produto, serviço, digital e financeiro, garantindo visibilidade sobre ativos, SLAs, falhas e tendências operacionais.
  • Uso intensivo de dados, principalmente em ofertas que dependem de monitoramento remoto, predição de falhas e análise de desempenho.
  • Revisão dos mecanismos de controle, para assegurar que decisões táticas e estratégicas não sejam tomadas exclusivamente pela lógica do produto.
  • Mecanismos de feedback contínuo, permitindo ajustar ofertas, preços, riscos e prioridades com base em dados reais de uso.

Esses sistemas sustentam a tomada de decisão em ambientes de incerteza, onde o valor entregue ao cliente depende do desempenho operacional da empresa ao longo do tempo.

Outros possíveis elementos de design organizacional

Alguns estudos apresentam conjuntos alternativos de elementos de design organizacional aplicados à evolução dos serviços. Um dos mapeamentos mais citados é o de Gebauer, Fischer & Fleisch (2010), que identificaram nove dimensões associadas à ampliação do escopo dos serviços e às mudanças na arquitetura organizacional. São elas:

  • Cultura corporativa: valores, crenças e normas que moldam a atitude em relação a serviços e à lógica relacional.
  • Comportamento dos funcionários: grau de orientação ao cliente, autonomia e iniciativa nas interações de serviço.
  • Estrutura organizacional: distribuição formal de funções, papéis e dependências entre unidades de produto e serviço.
  • Mecanismos de coordenação: rotinas, rituais e processos que integram diferentes áreas ao longo do ciclo de serviço.
  • Sistemas de controle e métricas: indicadores utilizados para monitorar desempenho, resultados e alinhamento interno.
  • Processos internos: formalização, padronização e fluidez dos processos que suportam a entrega de serviços.
  • Recursos e capabilidades: competências técnicas, digitais e relacionais necessárias para serviços avançados.
  • Envolvimento do cliente: intensidade e formato da participação do cliente na definição, entrega e melhoria dos serviços.
  • Distinção entre negócio de produto e negócio de serviço: clareza na diferenciação de mandatos, responsabilidades e lógicas operacionais.

Essa publicação evidencia como a definição dos elementos organizacionais varia conforme a perspectiva de estudo, o escopo da análise e o método de investigação adotado

 Pesquisas orientadas à estratégia de serviços tendem a decompor o design organizacional em dimensões mais granulares, enquanto abordagens focadas na arquitetura organizacional utilizam conjuntos mais integrados de elementos.

Os nove itens apresentados por Gebauer, Fischer & Fleisch (2010) convergem conceitualmente com os elementos adotados neste tópico, reforçando que diferentes taxonomias descrevem aspectos complementares de um mesmo fenômeno.

Por isso, os elementos estruturados na flexM4i permanecem válidos como referência integrada para orientar decisões de design organizacional na servitização.

Modelos organizacionais identificados na literatura

A evolução para serviços exige escolher uma configuração organizacional que dê sustentação às capabilidades necessárias e à lógica de serviço. A literatura apresenta diferentes modelos adotados por empresas em estágios variados de maturidade, combinando graus distintos de integração, especialização e foco no cliente.

Raddats & Burton (2011) analisaram 25 empresas de 11 setores diferentes e identificaram apenas três configurações recorrentes:

  • (1) unidades combinadas de produtos e serviços (combined product-and-services SBUs);
  • (2) unidades de serviços independentes (independent services SBUs); e 
  • (3) SBUs orientadas ao cliente ou setor (customer-focused SBUs). 
SBU (Strategic Business Unit) é uma estrutura organizacional que representa uma divisão semi autônoma de uma empresa maior, focada em um mercado-alvo específico, com sua própria missão, objetivos, estratégias, operação e resultados próprios (P&L). Veja a definição completa e principais características no glossário.

Essas configurações explicam a maior parte das variações observadas na transição de estratégias centradas no produto para ofertas baseadas em soluções, serviços operacionais e contratos multivendor.

Em contextos de servitização digital, a escolha estrutural também reflete a capacidade da empresa de coordenar parceiros, fluxos de dados e integrações tecnológicas fora de suas fronteiras. Sklyar et al. (2019) destacam que a viabilidade de cada configuração depende de como a empresa se posiciona e se integra ao ecossistema de serviços.

Com base nessas configurações gerais, este tópico descreve cinco modelos organizacionais utilizados na prática, que representam variações aplicadas a diferentes realidades empresariais. Esses modelos detalham diferenças de foco, escopo, desenho de front-end e back-end e formas de governança, mantendo coerência com as categorias propostas por Raddats & Burton (2011).

Integração total entre produto e serviço

Na integração total, produto e serviço operam dentro da mesma estrutura organizacional, sem unidades separadas ou cadeias de comando distintas.

Na tipologia de Raddats & Burton (2011), esse modelo corresponde às combined product and services SBUs, em que serviços são utilizados principalmente para diferenciar os produtos, sob a mesma unidade de negócio

As responsabilidades são distribuídas entre as áreas existentes, e a entrega de serviços é tratada como continuidade natural do negócio de produto.

Características principais:

  • As equipes de vendas, engenharia, pós-venda e operações trabalham sob a mesma liderança, compartilhando metas, indicadores e prioridades.
  • O portfólio de serviços é desenvolvido e gerenciado pelas áreas funcionais já existentes, sem criação de estruturas dedicadas.
  • As decisões sobre produto e serviço são tomadas nos mesmos fóruns de governança, com foco em eficiência interna e coerência do portfólio.

Vantagens:

  • menor necessidade de investimento inicial em estruturas adicionais;
  • maior alinhamento entre características do produto e requisitos dos serviços;
  • facilidade de coordenação em ofertas simples ou em serviços ainda incipientes.

Limitações:

  • dificuldade de priorizar serviços quando a lógica dominante é a de produto;
  • baixa visibilidade do negócio de serviços, dificultando seu crescimento;
  • risco de subinvestimento em capacidades críticas para serviços avançados;
  • tendência à competição interna por recursos e atenção da liderança.

Esse modelo tende a funcionar melhor nas fases iniciais da servitização ou quando as ofertas permanecem transacionais, técnicas e de suporte ao produto, típicas dos PSS orientados ao produto.

Unidade de serviços separada (SBU ou divisão dedicada)

Neste modelo, a empresa cria uma unidade de serviços dentro da própria organização, com liderança, metas e mecanismos de gestão próprios.

Trata-se de uma estrutura interna, vinculada ao mesmo negócio e à mesma governança corporativa, mas com autonomia para desenvolver e operar serviços com foco e velocidade.

Estudos mostram que ofertas avançadas tendem a se apoiar em unidades diferenciadas, separadas das áreas tradicionais de produto, especialmente quando envolvem contratos complexos e de longo ciclo de vida (Raja et al., 2018). Na tipologia de Raddats & Burton (2011), essa configuração corresponde às independent services SBUs, criadas para concentrar capabilidades críticas e impulsionar o crescimento das receitas de serviços.

Modelos nos quais os serviços passam a operar como entidade separada da organização — com autonomia corporativa e, em alguns casos, personalidade jurídica própria — são tratados no tópico “Subsidiária de serviços e modelos corporativos mais avançados”.

Características principais:

  • Opera como SBU ou divisão interna, com equipe, orçamento, processos e governança próprios, mas ainda integrada à estrutura corporativa da empresa de produtos.
  • Produto e serviço passam a operar em cadeias de comando distintas, reduzindo conflitos de prioridade e permitindo foco consistente na lógica de serviço e no relacionamento contínuo com o cliente.
  • O desenvolvimento e a evolução das ofertas de serviço tornam-se responsabilidade direta da unidade dedicada, incluindo gestão de contratos, desempenho e suporte ao cliente.
  • Mantém coordenação contínua com engenharia de produto, operações e pós-venda, garantindo alinhamento técnico sem perder autonomia para desenvolver capabilidades críticas para serviços avançados.

Vantagens:

  • maior visibilidade estratégica para o negócio de serviços, sem exigir a criação de uma empresa independente;
  • foco operacional em serviços sem competição direta com prioridades do produto;
  • capacidade de acelerar o desenvolvimento de ofertas avançadas mantendo sinergia com estruturas existentes;
  • equilíbrio entre autonomia e integração com o negócio principal.
  • redução da competição interna por recursos, preservando o foco nas necessidades do cliente e nos compromissos contratuais;
  • ambiente mais favorável para construir capabilidades especializadas (contratos, operação remota, engenharia de aplicação, análise de dados)

Limitações:

  • risco de criação de silos entre produto e serviço, dificultando a integração necessária em PSS mais complexos;
  • possibilidade de desalinhamento entre roadmaps de produto e necessidades operacionais dos serviços;
  • custos adicionais de estrutura e duplicação de funções;
  • necessidade constante de mecanismos de coordenação para evitar fragmentação na experiência do cliente.
  • risco de criação de fronteiras rígidas entre produto e serviço, dificultando a integração necessária em PSS mais complexos, se os mecanismos de coordenação não forem robustos;
  • possibilidade de desalinhamento entre roadmaps de produto e necessidades operacionais dos serviços;
  • dificuldade de expandir serviços para outros negócios da empresa quando a unidade estiver vinculada a uma BU específica;
  • autonomia limitada para modelos de receita e arquiteturas de solução mais complexas.
  • custos adicionais de estrutura e duplicação de funções;
  • necessidade constante de mecanismos de coordenação para evitar fragmentação na experiência do cliente.

Esse modelo tende a ser mais adequado quando a empresa deseja acelerar o crescimento dos serviços e desenvolver PSS orientados ao uso ou ao resultado, que exigem capabilidades especializadas e dedicação exclusiva.

Arranjos híbridos: front-end integrado e back-end especializado

Nos arranjos híbridos, a empresa combina interação integrada com o cliente no front-end com especialização técnica e operacional no back-end. O objetivo é equilibrar coordenação comercial e relacionamento contínuo com capabilidades específicas necessárias para operar serviços avançados e sistemas produto-serviço.

Evidências mostram que arranjos híbridos são comuns quando a empresa opera simultaneamente ofertas orientadas a produto, uso e resultado, exigindo diferentes níveis de integração e separação (Raja et al., 2018). A divisão entre atividades de alto contato (front-end) e atividades técnico-operacionais (back-end) varia conforme a complexidade das ofertas, e uma mesma empresa pode adotar múltiplas combinações em unidades distintas (Raja et al., 2018).

Do ponto de vista das configurações propostas por Raddats & Burton (2011), trata-se de um arranjo interno que pode ser implementado em unidades combinadas, unidades de serviços independentes ou SBUs orientadas ao cliente, dependendo da localização do P&L de serviços.

Um caso particular de arranjo híbrido descrito na literatura é o chamado “virtual services SBU”, no qual os recursos de serviços permanecem alocados nas unidades de produto, mas reportam a uma liderança virtual de serviços responsável por coordenar políticas, resultados financeiros e melhores práticas (Raddats & Burton, 2011).

Características principais:

  • O front-end apresenta uma face única ao cliente, integrando vendas, atendimento, engenharia de aplicação e gestão de contratos.
  • O back-end especializado em manutenção, operação remota, análise de dados, engenharia de campo e gestão de ativos.
  • Produto, serviço e digital continuam pertencendo a estruturas distintas, mas são articulados por mecanismos de coordenação que garantem coerência entre entregas e compromissos de desempenho.

Vantagens:

  • maior fluidez na experiência do cliente, que interage com uma estrutura integrada e orientada a solução;
  • desenvolvimento de serviços avançados sem ruptura completa da estrutura existente;
  • preservação de especialização técnica e redução de duplicações;
  • melhor alinhamento entre engenharia, back-office e equipes de contratos.

Limitações:

  • alta dependência de coordenação robusta entre produto, serviço e digital;
  • conflitos de prioridades operacionais, quando o produto não foi originalmente projetado para os compromissos de serviço;
  • desafios na definição de responsabilidades finais sobre desempenho, custos e riscos compartilhados;
  • risco de sobrecarga no front-end em estruturas muito fragmentadas.

Esse modelo é adequado quando a empresa busca ampliar o portfólio de serviços, operar PSS mais complexos e fortalecer o relacionamento com o cliente, sem abrir mão da especialização técnica das estruturas existentes.

Estruturas orientadas a segmentos, contas ou indústrias

Após a servitização, a empresa pode organizar sua estrutura de serviços e soluções em torno de grandes contas, segmentos de clientes ou verticals industriais, ao invés de simplesmente por produto ou por geografia. Isso permite uma oferta mais personalizada, com forte coordenação entre produto e serviço adaptada às necessidades específicas de cada cliente ou setor.

Empiricamente, divisões de uma mesma empresa podem operar múltiplas configurações simultâneas para atender segmentos distintos (Raja et al., 2018). Trata-se de uma forma concreta das customer-focused SBUs descritas por Raddats & Burton (2011), nas quais a estrutura é organizada em torno de segmentos ou mercados, e os serviços tornam-se componente central da proposta de valor.

Características principais:

  • Equipes integradas (produto + serviço + digital) dedicadas a um segmento ou indústria, aprofundando o conhecimento da cadeia de valor, TCO e modelo de negócio do cliente.
  • Responsáveis pelo segmento lideram o portfólio completo de soluções, combinando hardware, serviços e digital sob governança orientada ao cliente.
  • Flexibilidade para configurar serviços, SLAs, opções de uso/resultado e modelos de receita específicos por segmento ou grande conta.

Vantagens:

  • forte alinhamento entre oferta e necessidades do segmento;;
  • maior capabilidade de antecipar necessidades de serviços, com base em conhecimento do segmento;
  • construção de relacionamentos de longo prazo com grandes clientes, reforçando diferenciação competitiva;
  • facilidade na obtenção de dados e feedback, devido à proximidade com o cliente-vertical.

Limitações

  • risco de duplicação de recursos entre segmentos, levando a ineficiências;
  • necessidade de forte coordenação entre segmento-unidade e funções corporativas de produto e serviço;
  • desafios de escala e padronização quando há customização intensa;
  • complexidade na governança de portfólio múltiplo por segmento, com diferentes métricas, contratos e modelos de receita.

Esse modelo é adequado para empresas que já operam serviços de valor elevado e desejam escalar soluções adaptadas a grandes clientes ou nichos industriais, onde a lógica de solução e relacionamento de longo prazo predomina.

Embora esse modelo exija maior customização para segmentos ou grandes contas, empresas mais maduras mitigam essa complexidade adotando arquiteturas modulares de serviços e padrões de back-end. 

Essa abordagem viabiliza customização em massa: variedade no front-end com eficiência operacional no back-end, mantendo escala mesmo em soluções diferenciadas por indústria ou cliente.

Subsidiária de serviços e modelos corporativos mais avançados

No estágio mais avançado da servitização, algumas empresas estruturam o negócio de serviços como uma subsidiária especializada ou como uma entidade corporativa separada, com mandato estratégico abrangente e autonomia operacional completa.

Essa configuração pode ser entendida como uma evolução das customer-focused SBUs (Raddats & Burton, 2011), nas quais o negócio de serviços assume status corporativo e, em alguns casos, forma jurídica própria.

A literatura reforça que não há desenho ideal. A escolha depende do tipo de oferta, da complexidade dos contratos e das demandas dos clientes, podendo envolver estruturas mais integradas ou unidades altamente especializadas (Raja et al., 2018).

Diferentemente da unidade interna, aqui os serviços deixam de ser extensão do produto e passam a operar como um negócio próprio, transversal a múltiplos produtos, segmentos, geografias e unidades de negócio.

Características principais

  • Entidade separada da organização principal, podendo assumir a forma de subsidiária, empresa do grupo, holding de serviços ou corporate service company.
  • Mandato corporativo transversal, atuando sobre múltiplas BUs, produtos ou geografias — e não apenas sobre um único negócio.
  • Governança própria, com diretoria executiva, métricas e estratégia independentes.
  • Concentração de capabilidades avançadas (engenharia de soluções, gestão de risco, operações remotas, analytics preditivo, SLAs globais, gestão integrada de ativos).
  • Possibilidade de criar modelos de receita mais sofisticados (disponibilidade, desempenho, resultados) e operar portfólios globais de contratos.
  • Relação formal e contratualizada com as demais unidades de produto, garantindo interface técnica e alinhamento de prioridades.

Vantagens

  • alta autonomia para desenvolver e escalar serviços complexos;
  • velocidade para ofertas orientadas a uso ou resultado;
  • padronização global do back-end com modularidade no front-end por meio de arquiteturas modulares;
  • fortalecimento das capabilidades dinâmicas, com foco em inovação contínua, gestão de risco e melhoria da performance contratada;
  • facilidade para firmar parcerias, joint ventures ou operações híbridas sem gerar conflitos internos.

Limitações

  • risco de distanciamento entre subsidiária e unidades de produto, exigindo mecanismos de governança mais robustos para preservar coerência técnica.
  • investimentos significativos para manter equipes especializadas, sistemas, plataformas digitais e capacidades globais.
  • possibilidade de fragmentação da experiência do cliente se o modelo de coordenação não for bem estruturado.
  • exige maturidade elevada: criar uma subsidiária cedo demais pode bloquear sinergias importantes entre produto e serviço.

Comentários sobre os modelos organizacionais

Os cinco modelos apresentados representam desdobramentos práticos das três configurações estruturais identificadas por Raddats & Burton (2011): unidades combinadas, unidades de serviços independentes e SBUs orientadas ao cliente.

Apesar das diferenças entre os modelos, a literatura converge em um ponto:

não existe uma configuração única que sirva para todas as empresas.

Em outras palavras, não existe o “one-size-fits-all”, como mostra a teoria da contingência.

Estudos recentes reforçam esse quadro de ausência de consenso. Ao revisar a literatura sobre estruturas organizacionais na servitização, Peillon (2021) mostra que diferentes pesquisas chegam a conclusões divergentes sobre os benefícios de separar ou integrar as unidades de produto e serviço na servitização. Em vez de buscar uma resposta única, a autora argumenta que a escolha estrutural deve ser analisada à luz das tensões permanentes entre as duas lógicas (de produto e de serviço) e das condições específicas de cada contexto.

A estrutura mais adequada depende:

  • da maturidade do negócio de serviços, 
  • do tipo de oferta, 
  • das capabilidades já desenvolvidas e 
  • do grau de integração necessário entre produto, serviço e componentes digitais .

Além da perspectiva contingencial, que busca o “melhor ajuste” entre estrutura, estratégia e ambiente, Peillon (2021) chama atenção para uma leitura baseada em paradoxos e ambidestria organizacional. Nessa visão, separar ou integrar não elimina a tensão entre lógica de produto e lógica de serviço: …

 … a organização precisa aprender a conviver com contradições persistentes, combinando, em diferentes níveis, elementos de integração, separação e coordenação.

Esses fatores influenciam as trajetórias organizacionais, que serão discutidas nos tópicos seguintes.

O mesmo ocorre quando tratamos da gestão da inovação, como você pode ler na seção sobre os fatores contextuais e tipos de inovação.

Caminhos evolutivos típicos da servitização segundo a literatura

Este tópico é recomendado para as pessoas interessadas no nível de detalhamento avançado e serve de base para o próximo tópico “Trajetórias organizacionais da servitização”, que sintetiza essas evidências em modelos aplicáveis ao contexto corporativo e às decisões organizacionais. Para uma visão pragmática, já passe para o próximo tópico.

Os principais caminhos evolutivos documentados na literatura acadêmica são exemplos de trajetórias conceituais que descrevem como empresas orientadas a produtos tendem a evoluir para ofertas cada vez mais orientadas a serviços.

Não esgotamos todas as publicações existentes, só trouxemos alguns exemplos que corroboram o que afirmamos no tópico anterior: não existe a melhor solução.

O caminho evolutivo do fabricante ao provedor de serviços

Este tópico foi extraído de Oliva & Kallenberg (2003).

O processo de transição ocorre em estágios, conforme a organização desenvolve novas capabilidade e lida com desafios específicos.

Estágio 1 — Consolidando a oferta de serviços relacionados ao produto (consolidating the product-related service offering)
Este é o ponto de partida para fabricantes que já fornecem serviços básicos para vender e apoiar seu produto.

  • Foco Principal: Reunir a oferta de serviços existente sob uma única unidade organizacional. O objetivo é melhorar a eficiência, qualidade e tempo de entrega dos serviços já fornecidos.
  • Resultados: Criação de “transparency of numbers” (transparência dos números) para monitorar o mercado de serviços e desenvolver uma reputação como provedor de serviços confiável.
  • Tipo de Serviço (Nível Básico): Transaction-based services (serviços baseados em transação), como basic installed base (IB) services (serviços básicos para a base instalada).
IB (Installed Base) refere-se a todos os equipamentos, máquinas, veículos, sistemas ou ativos que a empresa já vendeu e que estão operando no cliente.
É sobre essa base instalada que a empresa estrutura:
  • serviços técnicos,
  • contratos de manutenção,
  • retrofit,
  • upgrades,
  • serviços digitais,
  • ofertas orientadas ao ciclo de vida,
  • contratos de disponibilidade,
  • soluções avançadas de desempenho.

Por isso a expressão IB Service Market significa:
O mercado potencial e real de serviços gerado pela base instalada de produtos em operação.
Ou seja, é o “mercado de serviços” que a empresa pode capturar a partir de cada ativo vendido e ativo já instalado.

Estágio 2 —Entrando no mercado de serviços da base instalada (entering the IB service market)
Neste estágio, a empresa identifica o potencial de lucro no mercado de serviços e estabelece as estruturas para explorá-lo.

  • Ação Crítica: Criação de uma organização separada para gerenciar a oferta de serviços, frequentemente funcionando como um centro de lucro (profit center).
  • Desafio: Superar a mudança cultural de uma organização focada em produtos para uma orientada a serviços.
  • Progresso: Focar em construir uma organização de serviços funcional e desenvolver métricas para medir a satisfação do cliente e o sucesso do negócio. As empresas geralmente se estabelecem firmemente no basic IB service business (negócio básico de serviços para a base instalada) antes de avançar.

Estágio 3 — Expandindo a oferta de serviços IB (expanding the IB service offering)
A expansão ocorre através de duas transformações distintas (que formam os eixos da Matriz de Serviços IB).

Transição A: Foco no Relacionamento (Eixo Vertical) O foco das interações com o cliente muda de transaction-based (baseado em transação) para relationship-based (baseado em relacionamento).

  • Serviços Envolvidos: Maintenance services (Serviços de Manutenção).
  • Mecanismo: Mudar a precificação de um markup por mão de obra/peças para um preço fixo (maintenance contracts), onde o provedor de serviços assume o risco de falha do equipamento. A precificação é baseada na operational availability (disponibilidade operacional) e response time (tempo de resposta).

Transição B: Foco no Processo (Eixo Horizontal) O foco da proposta de valor muda da eficácia do produto (whether the product works) para a eficiência e eficácia do produto dentro do processo do usuário final.

  • Serviços Envolvidos: Professional services (serviços profissionais) e process-oriented services (serviços orientados a processos).
  • Mecanismo: O fabricante se transforma em um “solution provider” (provedor de soluções), fornecendo serviços que suportam e melhoram continuamente a utilização da base instalada ao longo de seu ciclo de vida completo.

Estágio Avançado — Assumindo as operações do usuário final (taking over the end-user’s operations)
Este estágio representa a “pure service organization” (organização de serviço puro), onde o provedor assume totalmente o risco operacional e a responsabilidade pelo processo do usuário final.

  • Serviços Envolvidos: Operational services (Serviços Operacionais).

Status no Estudo: Na época do estudo (2003), este era um território em grande parte inexplorado para os fabricantes, e nenhuma organização da amostra havia avançado para este espaço.

O caminho evolutivo para soluções integradas

Este tópico foi extraído de Davies, Brady & Hobday (2006).

Este estudo descreve três estágios de desenvolvimento organizacional que permitem a uma empresa de manufatura migrar do fornecimento de produtos para a entrega de soluções integradas — combinações de produtos, serviços, suporte e responsabilidade conjunta pelo desempenho.

Cada estágio representa um salto na capabilidade de coordenar front-end, back-end e estrutura estratégica.

Estágio 1 — Construir uma nova face para o cliente (Building a new customer interface)
No ponto de partida, a empresa começa a atuar de forma mais próxima e consultiva junto aos clientes.

  • Foco principal: Experimentar soluções em pequena escala — frequentemente em projetos-piloto — para aprender a integrar produtos e serviços.
  • Mecanismos típicos: 
    • uso de equipes multidisciplinares; 
    • incubação de ofertas dentro de unidades existentes ou estruturas paralelas; 
    • testes com clientes para validar o valor das soluções integradas.
  • Resultados esperados: Desenvolvimento das primeiras competências de integração, com baixo risco e forte aprendizado em contato com a base instalada e com necessidades complexas dos clientes.

Estágio 2 — Fortalecer as capabilidades de retaguarda (Strengthening the back-end capabilities)
Com as primeiras experiências validadas, a empresa precisa consolidar um back-end capaz de sustentar a entrega integrada.

  • Foco principal:  Criar infraestrutura organizacional, tecnológica e operacional para entregar soluções em escala.
  • Ações críticas: 
    • modularizar produtos e serviços; 
    • padronizar processos; 
    • transformar soluções sob medida em componentes repetíveis; 
    • criar um portfólio de building blocks reutilizáveis para diferentes clientes.
  • Efeito organizacional:  A entrega deixa de depender de esforços heróicos e passa a ser replicável, coordenada por diversas áreas da empresa.

Estágio 3 — Reorganizar toda a empresa (Reorganizing the entire firm)
Este é o estágio de transformação organizacional ampla, quando a empresa passa a operar de fato como um provedor de soluções integradas.

    • Foco principal:  Realinhar front-end, back-end e centro estratégico em torno da lógica de soluções.
  • Mudanças organizacionais típicas:
    • unidades voltadas ao cliente com maior autonomia;
    • consolidação dos canais de contato com o cliente;
    • integração efetiva entre áreas de produto e serviço;
    • coordenação centralizada dos recursos críticos de solução;
    • processos e estruturas orientados à entrega ágil e customizada.

Resultado esperado:  A empresa passa a oferecer soluções repetíveis, escaláveis e integradas, atendendo necessidades complexas de forma consistente e com maior eficiência.

Síntese

O avanço para soluções integradas exige o desenvolvimento sequencial de três conjuntos de capabilidades:

  1. experimentação controlada no front-end,
  2. padronização e modularização no back-end,
  3. transformação organizacional completa orientada à lógica de soluções.

Esses estágios descrevem uma trajetória clara, na qual a empresa evolui da venda de produtos para um modelo de valor baseado em integração, customização e responsabilidade compartilhada pelo desempenho.

Caminhos estratégicos da transição de produtos para soluções

Este tópico foi extraído de Paiola et al (2013).

O estudo de Paiola et al. (2013) identifica quatro estratégias alternativas para orientar a transição de fabricantes para provedores de soluções. Cada uma resulta da combinação entre o escopo dos componentes de serviço e a forma de desenvolver as capabilidades necessárias. Não se trata de uma trajetória linear, mas de quatro caminhos possíveis, usados conforme a ambição estratégica, o modelo de negócios e a maturidade organizacional.

Estratégia A — Serviços básicos de pós-venda (selling after-sales services)

  • Foco nos serviços: concentra-se na entrega de serviços essenciais de suporte ao produto, como hotline, peças, reparo e diagnóstico, garantindo sua funcionalidade e mantendo a confiabilidade percebida pelo cliente.
  • Desenvolvimento das capacidades: ocorre integralmente dentro da empresa (single vendor approach), preservando o controle operacional e o acesso direto à base instalada.
  • Essência da estratégia: proteger a reputação do produto e fortalecer o vínculo com o cliente por meio de um pós-venda eficiente, sem exigir mudanças estruturais profundas.
  • Aplicação típica: fabricantes que estão no início da jornada de servitização e priorizam consolidar o pós-venda antes de ampliar o escopo das ofertas.

Estratégia B — Integração de soluções avançadas de pós-venda (integrating after-sales solutions)

  • Foco nos serviços: amplia o escopo para manutenção avançada, prevenção proativa de falhas, otimização de desempenho e outros serviços que melhoram a eficiência operacional do cliente.
  • Desenvolvimento das capacidades: adota uma abordagem mista, combinando capabilidades internas com parceiros externos, como distribuidores, especialistas técnicos ou provedores complementares.
  • Essência da estratégia: posicionar o fabricante como integrador de soluções de maior valor, expandindo a oferta sem carregar sozinho toda a complexidade da entrega.
  • Aplicação típica: empresas que já dominam os serviços básicos e buscam fortalecer o relacionamento contínuo com o cliente, criando ofertas mais robustas e diferenciadas.

Estratégia C — Soluções para o ciclo de vida completo (selling life-cycle solutions)

  • Foco nos serviços: cobre pré-vendas, vendas e pós-vendas, incluindo engenharia, preparação do ambiente, design & construction e suporte técnico contínuo ao longo de todo o ciclo de vida da solução.
  • Desenvolvimento das capabilidades: é predominantemente interno, exceto em áreas específicas como financiamento, exigindo capabilidades internas maduras de engenharia, integração e suporte
  • Essência da estratégia: assumir responsabilidade integral por uma solução completa e replicável, utilizando uma base interna forte para coordenar atividades de ciclo de vida.
  • Aplicação típica: fabricantes que desejam internalizar as competências necessárias para entregar soluções completas e que já possuem maturidade técnica suficiente para coordenar a oferta de ponta a ponta.

Estratégia D — Orquestração de soluções totais (orchestrating total solutions)

  • Foco nos serviços: envolve a entrega de soluções completas que resolvem totalmente a necessidade do cliente, frequentemente orientadas a resultados, incluindo outsourcing de processos do cliente e serviços integrados de alto grau de customização.
  • Desenvolvimento das capacidades: é majoritariamente externo, com a empresa retendo internamente a capabilidade crítica de orquestração, integração e governança de parceiros.
  • Essência da estratégia: atuar como coordenadora de uma rede de fornecedores, especialistas e parceiros, combinando módulos de serviço, componentes e recursos externos para entregar soluções completas.
  • Aplicação típica: organizações que buscam escalabilidade, rapidez na customização e modelos de negócio baseados em desempenho, assumindo responsabilidade significativa pelos resultados entregues ao cliente.

O continuum de componentes de serviço

As quatro estratégias baseiam-se em um continuum progressivo de serviços:

  1. Serviços que aumentam o produto (augmenting services)
  2. Serviços básicos para a base instalada
  3. Serviços avançados para a base instalada (manutenção, monitoramento remoto, otimização)
  4. Serviços de design & construction
  5. Serviços de outsourcing para processos do cliente

O movimento em direção às estratégias C e D envolve a incorporação crescente de serviços que respondem diretamente às necessidades de negócio do cliente e ampliam a responsabilidade assumida pelo provedor, frequentemente aproximando o modelo de desempenho (pay-for-performance).

Síntese

O modelo de Paiola et al. (2013) mostra que a evolução de produtos para soluções não segue uma escada única. Cada estratégia resulta do alinhamento entre o que é oferecido e como as capabilidades são adquiridas. Empresas podem avançar, combinar ou reposicionar-se entre essas quatro abordagens conforme a maturidade do portfólio, a natureza da demanda e a ambição estratégica.

Compare essas estratégias com o continuum que foi apresentado na seção principal sobre servitização.

Oliva & Kallenberg (2003) descrevem uma evolução linear interna em 4 passos (Consolidar, Entrar no Mercado IB, Expandir para Relacionamento/Processo, Assumir Operações). A capacidade é predominantemente desenvolvida internamente.

Paiola et al. (2013) mostram que o desenvolvimento de capacidades pode ser interno, misto ou externo. As abordagens (B) Integração e (D) Orquestração demonstram que o sucesso na entrega de soluções complexas (e de maior valor) depende criticamente da habilidade de parceria e integração (partnering and integration capabilities), e não apenas do desenvolvimento interno

Caminhos para o desenvolvimento de capabilidades de serviço

Este tópico foi extraído de Jovanovic et al. (2019).

O estudo de Jovanovic et al. (2019) demonstra que a forma como as capabilidades de front-office (FO) e back-office (BO) são desenvolvidas e articuladas determina se a empresa progride, estagna ou retrocede na transição para serviços avançados. Os autores identificam três caminhos distintos: um evolucionário e sustentável, um limitado pela falta de replicabilidade e um de regressão (desservitização).

Caminho I — Desenvolvimento sequencial e renovação de capabilidades (sequential development and capability renewal)

  • Foco dos serviços: inicia com serviços básicos de pós-venda e avança para serviços intermediários e, depois, avançados, seguindo uma lógica de maturação da demanda e do relacionamento com o cliente.
  • Desenvolvimento de capabilidades: começa com FO, consolidando operações de linha de frente, construção de confiança e vendas de serviço dedicadas; na sequência, o BO se estrutura para fornecer suporte técnico especializado, evoluindo para padronização de ofertas, processos e métricas.
  • Interação FO/BO: apresenta interação contínua e crescente; o BO fornece know-how técnico para customização do FO e, na maturidade, ambos operam processos integrados ponta a ponta.
  • Resultado na maturidade: empresa alcança serviços avançados com eficiência operacional, repetibilidade, redução de variações e capacidade de renovação contínua (capability renewal). É o caminho mais propício para sustentar serviços avançados.

Caminho II — Dificuldade de replicação de capabilidades (difficulty in replicating capabilities)

  • Foco dos serviços: evolui além dos serviços básicos, mas apresenta falhas sistemáticas ao tentar desenvolver serviços intermediários e avançados.
  • Desenvolvimento de capabilidades: FO permanece dependente de vendas de produtos e não consolida vendas de serviço dedicadas; BO desenvolve suporte técnico, mas de forma reativa e subdimensionada, sem processos estruturados.
  • Interação FO/BO: limitada, fragmentada e pouco coordenada, com troca de informação ad-hoc, prejudicando a escalabilidade.
  • Resultado na maturidade: a empresa até oferece alguns serviços avançados, mas sem controle operacional; falha em padronização, não escala e não consegue replicar a solução entre clientes. O progresso é incompleto e instável.

Caminho III — Retrocesso com redução de capabilidades e diluição dos serviços (capability retrenchment and service dilution)

  • Foco dos serviços: começa tentando oferecer simultaneamente todo o espectro de serviços — básicos, intermediários e avançados — sem seguir uma sequência de aprendizagem.
  • Desenvolvimento de capabilidades: FO e BO são desenvolvidos ao mesmo tempo, com equipes pequenas, sobrecarregadas e com baixa especialização; falta modularidade de soluções e inexistem rotinas padronizadas para entrega.
  • Interação FO/BO: limitada e marcada por tensões permanentes; o feedback não gera aprendizado acumulado e os processos não melhoram com o tempo.
  • Resultado na maturidade: a empresa falha em sustentar serviços avançados e recua para serviços básicos e intermediários, reduzindo sua capabilidades de entrega — um processo claro de desservitização.

Implicações gerais do estudo

Jovanovic et al. (2019) mostram que o desenvolvimento de capabilidades de serviço não depende apenas da padronização do BO (como sugerido em modelos anteriores), mas da sequência correta de construção do FO e, depois, da estruturação e padronização do BO. A interação FO/BO é o mecanismo mais crítico para a maturação. Caminhos não sequenciais tendem à estagnação ou regressão, especialmente quando FO e BO são desenvolvidos simultaneamente sem rotinas claras.

Caminho evolutivo do modelo de maturidade de servitização (servitization maturity model)

Este tópico foi extraído de Kimita et al. (2022)

O modelo proposto por Kimita et al. (2022) articula a evolução da servitização como um processo de desenvolvimento progressivo e estruturado de capabilidades. A maturidade avança pela combinação de dois componentes: 

(1) níveis de capabilidades, que indicam o grau de formalização dos processos associados a uma competência específica, e 
(2) níveis de maturidade, que determinam o escopo e a profundidade das capacidades necessárias para sustentar o avanço da organização.

A lógica evolutiva é cumulativa: conforme a maturidade avança, a empresa precisa formalizar, integrar e padronizar um conjunto crescente de capacidades distribuídas em toda a organização.

Nível 1 — Initial (inicial)

  • Foco dos serviços: atuação limitada em serviços básicos, com foco em atividades reativas e pouco estruturadas.
  • Desenvolvimento das capabilidades: desenvolvimento inicial e parcial de capabilidades específicas, com processos pouco formalizados e conhecimento disperso em equipes de projeto.
  • Essência da estratégia: promover conscientização interna sobre a oportunidade e o potencial econômico do negócio de serviços.
  • Aplicação típica: empresas que estão dando os primeiros passos na servitização, experimentando de forma limitada e sem integração entre unidades, clientes ou parceiros.

Nível 2 — Managed (gerenciado)

  • Foco dos serviços: expansão moderada dos serviços, com base em projetos piloto que permitem validar benefícios e refinar a lógica operacional das ofertas.
  • Desenvolvimento das capabilidades: maior formalização de processos, definição de segmentos de clientes, introdução de KPIs, padronização inicial de operações e modularização parcial das soluções.
  • Essência da estratégia: lançar projetos estruturados para construir aprendizado, padronizar rotinas e reduzir incertezas na entrega de serviços.
  • Aplicação típica: empresas que já entendem o potencial do negócio de serviço e começam a investir na profissionalização das equipes, processos e ofertas.

Nível 3 — Defined (definido)

  • Foco dos serviços: transição para serviços integrados, com maior participação de clientes e parceiros e adoção de rotinas organizacionais consistentes
  • Desenvolvimento das capabilidades: formalização clara de processos, fortalecimento das estruturas de RH para serviços, envolvimento dos stakeholders e melhoria do alinhamento produto–serviço.
  • Essência da estratégia: consolidar a gestão de serviços como uma disciplina formal, capaz de operar com previsibilidade e qualidade.
  • Aplicação típica: empresas que buscam ampliar o escopo das soluções, fortalecendo capabilidades internas e mecanismos de coordenação entre produto, serviço e parceiros externos.

Nível 4 — Quantitatively Managed (gerenciado quantitativamente)

  • Foco dos serviços: operação orientada por dados, com uso intensivo de digitalização, sensores e métricas para controlar desempenho, custos e riscos.
  • Desenvolvimento das capabilidades: integração de dados de campo, gestão quantitativa de desempenho, uso de dados para melhorar produtos e serviços, e fortalecimento das práticas de precificação e mitigação de risco.
  • Essência da estratégia: alcançar eficiência superior e maior previsibilidade, utilizando dados para tomada de decisão e gestão de portfólio.
  • Aplicação típica: empresas com operação de serviços já consolidada que desejam migrar para modelos de negócio baseados em dados e desempenho.

Nível 5 — Optimizing (otimizando)

  • Foco dos serviços: ampliação do portfólio, integração total entre produtos e serviços e criação de relacionamentos de longo prazo com clientes e parceiros.
  • Desenvolvimento das capabilidades: otimização contínua de processos, descentralização eficiente, compartilhamento de recursos, melhoria contínua e uso preditivo de dados para identificar novas oportunidades.
  • Essência da estratégia: maximizar o desempenho econômico e operacional do negócio de serviços por meio de integração ampla, elevados níveis de formalização e uso avançado de dados.

Aplicação típica: empresas que atingiram alto grau de maturidade, operando múltiplos negócios de serviço de forma integrada, eficiente e orientada à criação contínua de valor.

Comentários sobre os caminhos evolutivos

Os caminhos evolutivos apresentados neste capítulo não esgotam todas as possíveis interpretações sobre a servitização, mas oferecem uma base conceitual abrangente para compreender como as empresas avançam na servitização, desde serviços básicos até soluções integradas e contratos orientados a desempenho.

Como comentamos no início, o conhecimento desses caminhos é voltado para pessoas interessadas no nível de detalhamento avançado. Alguém da prática deve ler somente o próximo tópico “Trajetórias organizacionais da servitização”.

Esses referenciais capturam, em diferentes períodos e contextos, os principais mecanismos que estruturam a evolução das capabilidade, o redesenho organizacional e o amadurecimento das ofertas de serviço

Abordagens adicionais são tratadas na seção dedicada às tipologias de PSS, pois dialogam mais diretamente com a evolução das ofertas do que com transformações estruturais. Para os propósitos desta seção, as trajetórias analisadas já oferecem base suficiente para a síntese posterior e para orientar a discussão sobre trajetórias organizacionais para e pós-servitização.

Trajetórias organizacionais da servitização

A evolução organizacional na servitização segue trajetórias distintas. Cada trajetória representa um caminho possível de transição entre os modelos organizacionais apresentados anteriormente:

  • integração total;
  • unidade (SBU) dedicada;
  • arranjos híbridos: front-end integrado e back-end especializado;
  • estruturas orientadas a segmentos, contas ou indústrias;
  • subsidiárias corporativas de serviços.

Compreender essas trajetórias permite que a empresa identifique seu ponto de partida, antecipe desafios e decida, de forma mais informada, qual configuração organizacional é mais adequada ao seu estágio de servitização.

Caminhos evolutivos típicos

Como apresentado no tópico anterior, a servitização não segue um padrão único. Empresas partem de bases distintas, operam em contextos diferentes e enfrentam pressões internas e externas específicas.

Os caminhos evolutivos devem ser entendidos como alternativas possíveis — não como sequências prescritas.

Em geral, as trajetórias começam com estruturas integradas voltadas a serviços técnicos básicos, avançam para modelos híbridos quando surgem conflitos entre lógica de produto e lógica de serviço, e evoluem para unidades dedicadas ou subsidiárias corporativas quando a complexidade das ofertas exige autonomia, especialização e capabilidades próprias.

Evidências empíricas mostram que diferentes configurações podem coexistir ao longo da trajetória de servitização, refletindo a evolução do portfólio e os diferentes níveis de complexidade das ofertas (Raja et al., 2018).

Padrões estratégicos de evolução em serviços

Evidências empíricas mostram que a evolução dos serviços nas empresas segue padrões relativamente previsíveis, mesmo em setores distintos. Em um estudo com 200 fabricantes, Gebauer, Fischer & Fleisch (2010) identificaram quatro sequências dominantes de ampliação do escopo dos serviços: 

  • de customer service para after-sales services; 
  • de after-sales services para customer support; 
  • de customer support para development services; e, por fim, 
  • para relationship-based services. 

Esses padrões estratégicos mostram que, à medida que o escopo dos serviços avança para ofertas mais complexas e relacionais, surgem pressões crescentes para reconfigurações organizacionais. Isso  explica a necessidade das trajetórias estruturais discutidas nos tópicos seguintes.

Transições entre modelos

As transições organizacionais não são lineares. A empresa pode migrar entre modelos organizacionais conforme a evolução das ofertas, a pressão competitiva e o acúmulo de capabilidades. Alguns movimentos típicos incluem:

  • Da estrutura integrada para modelos híbridos, quando surgem conflitos entre prioridades de produto e serviço.
  • Da estrutura híbrida para unidades dedicadas, quando os serviços passam a demandar processos, KPIs, governança e especialização que não cabem na lógica tradicional de produto.
  • Da unidade dedicada para subsidiárias corporativas, quando o portfólio de soluções exige escala global, P&L próprio e autonomia estratégica.

Peillon (2021) reforça essa visão dinâmica ao mostrar que o dilema “separar ou integrar” não é resolvido de uma vez por todas. Em diferentes estágios de maturidade dos serviços, as empresas revisitam suas escolhas estruturais, alternando movimentos de maior integração com fases de maior separação, em função das pressões internas, das exigências dos clientes e da evolução do portfólio.

A literatura destaca três fatores que condicionam a transição:

  • Pressões internas — aumento do portfólio de serviços, necessidade de capabilidades específicas, conflitos crescentes entre lógica de produto e lógica de serviço.
  • Pressões externas — exigência de disponibilidade, demanda por resultados, competição baseada em soluções e entrada de novos players digitais.
  • Capabilidade organizacional acumulada — quanto mais madura a empresa em engenharia de serviços, dados, operação remota e gestão de risco, mais sustentável se torna a transição para modelos avançados.

Transições precipitadas podem enfraquecer a integração produto–serviço. Transições tardias podem travar o crescimento do negócio de serviços.

Estudos sintetizados por Peillon (2021) mostram que esses fatores ajudam a explicar por que alguns fabricantes prosperam com unidades integradas, enquanto outros só conseguem avançar em serviços com estruturas mais separadas.

Como argumentam Sklyar et al. (2019), trajetórias organizacionais na servitização digital envolvem não apenas reconfigurações internas, mas reposicionamento da empresa dentro do ecossistema de serviços.

Fatores que influenciam a trajetória

A escolha do caminho organizacional depende de variáveis estratégicas e operacionais. Entre as mais citadas pela literatura:

  • Tipo de oferta — serviços técnicos podem ser geridos no modelo integrado; serviços baseados em desempenho ou resultado exigem maior autonomia estrutural.
  • Maturidade do mercado — clientes sofisticados pressionam por soluções avançadas e contratos de longo prazo, favorecendo estruturas especializadas.
  • Capabilidades existentes — bases sólidas de pós-venda aceleram a evolução; lacunas em engenharia de campo, digitalização e analytics demandam investimento prévio.
  • Grau de digitalização — monitoramento remoto, dados e automação influenciam redesenhos organizacionais.
  • Complexidade do produto — ativos de alta criticidade ou operação contínua exigem estruturas mais robustas de serviço.
  • Estratégia corporativa — empresas que tratam serviços como vetor de crescimento tendem a evoluir mais rapidamente para modelos dedicados ou subsidiárias.

A trajetória, portanto, é contingencial — depende do alinhamento entre estratégia, mercado e capabilidades desenvolvidas.

Em serviços avançados, especialmente em contratos complexos ou orientados a resultados, clientes com alto poder contratual influenciam diretamente a configuração organizacional do fornecedor. Estudos mostram casos em que a estrutura de front-end, o formato das equipes e até a criação de times integrados (IPTs – Integrated Project Teams) são definidos ou negociados a partir das exigências do cliente (Raja et al., 2018).

Clientes com alto poder contratual influenciam diretamente a configuração organizacional do fornecedor

Riscos das transições apressadas ou tardias

As decisões de migração estrutural exigem equilíbrio. As duas decisões extremas — mudar rápido demais ou mudar tarde demais — trazem riscos significativos:

Riscos de transições apressadas

  • Perda de sinergia entre produto e serviço.
  • Criação artificial de fronteiras organizacionais.
  • Autonomia excessiva sem capabilidades suficientes para sustentá-la.
  • Fragmentação da experiência do cliente.
  • Duplicação de recursos e aumento de custos fixos.

Riscos de transições tardias

  • Conflitos permanentes entre lógica de produto e lógica de serviço.
  • Incapacidade de escalar serviços avançados.
  • Perda de mercado por falta de agilidade em ofertas orientadas ao uso e resultado.
  • Dificuldade em desenvolver capabilidades críticas (gestão de ativos, analytics, operação remota).
  • Perda de talentos especializados que não encontram espaço na estrutura atual.

Esses riscos aparecem em diferentes casos analisados na literatura e são enfatizados por Peillon (2021) ao discutir os limites da separação precoce ou da integração prolongada. Por isso, a trajetória organizacional deve ser revisada periodicamente, considerando o estágio de servitização, a maturidade interna e as exigências do mercado.

A trajetória organizacional deve ser revisada periodicamente,

Riscos de desservitização e como evitá-los

A desservitização ocorre quando a empresa, após iniciar sua trajetória em serviços, reduz, desprioriza ou abandona iniciativas de servitização, mesmo após ter avançado para serviços mais complexos.

A literatura mostra que esse movimento não é incomum em organizações orientadas a produtos e está associado a falhas estruturais, desalinhamentos internos e decisões de curto prazo.

Entender suas causas permite antecipar riscos e construir mecanismos que preservem a evolução do negócio de serviços.

Principais causas da desservitização

  • Capabilidades insuficientes para sustentar contratos complexos
    A empresa avança para serviços mais avançados — especialmente disponibilidade, desempenho e resultado — sem possuir estrutura, processos ou conhecimento para operá-los. O esforço se torna insustentável.
  • Falhas na coordenação entre produto e serviço:  Conflitos internos, metas incompatíveis e ausência de mecanismos de integração levam a atrasos, sobrecarga operacional e deterioração da experiência do cliente.
  • Estruturas desalinhadas com o nível de complexidade das ofertas:  Modelos integrados persistem quando a empresa já deveria ter migrado para estruturas híbridas, dedicadas ou corporativas, travando a evolução dos serviços.
  • Pressões financeiras de curto prazo:  Em ambientes de margem apertada, investimentos em serviços — cujo retorno é mais lento — são interrompidos, deslocando a prioridade novamente para o produto.
  • Promessas comerciais desconectadas da capacidade operacional:  Quando o front-end promete SLAs ou resultados que o back-end não consegue entregar, os serviços passam a ser vistos como problema, e não como alavanca de valor.
  • Falta de uma narrativa clara de valor dos serviços:  Sem evidências concretas de impacto no cliente, a alta gestão pode questionar o racional para continuar investindo em serviços avançados.

Sinais de que a empresa está entrando em desservitização

  • Redução do escopo das ofertas ou retorno aos serviços transacionais.
  • Queda na rentabilidade dos serviços por falhas operacionais recorrentes.
  • Perda de talentos especializados em serviços.
  • Aumento da taxa de cancelamentos de contratos ou perda de assinantes em um determinado período (churn) em contratos de longo prazo.
  • Retração nos investimentos digitais ou em engenharia de aplicação.
  • Predominância da lógica de produto nas decisões estratégicas.

Como evitar a desservitização

  • Ajustar a estrutura ao estágio de maturidade: Estruturas integradas funcionam em estágios iniciais; à medida que o portfólio evolui, modelos híbridos ou dedicados tornam-se necessários para sustentar SLAs complexos.
  • Fortalecer mecanismos formais de coordenação: Governança conjunta, rituais de decisão compartilhada, métricas integradas e processos orientados à solução reduzem conflitos entre áreas.
  • Garantir que o front-end venda o que o back-end consegue entregar: A integração entre engenharia de campo, monitoramento, desenvolvimento de soluções e vendas é chave para proteger a credibilidade dos serviços.
  • Priorizar capabilidades críticas antes de avançar para ofertas mais sofisticadas: A literatura é clara: pular etapas aumenta drasticamente o risco de falhas operacionais e abandono posterior.
  • Construir uma lógica de valor baseada em evidências: Demonstração recorrente de impacto para o cliente — seja via TCO, disponibilidade ou produtividade — fortalece o caso de negócio dos serviços perante a alta gestão.
  • Estabelecer incentivos e KPIs coerentes com a lógica de serviço: Se as métricas internas reforçam apenas a lógica de produto, o movimento de servitização perde tração.

A desservitização não ocorre por falta de potencial dos serviços, mas por inconsistências entre estrutura, capabilidades, incentivos e expectativas. Empresas que reconhecem precocemente esses riscos e ajustam sua arquitetura organizacional tendem a preservar e ampliar os benefícios da servitização no longo prazo.

Guia prático para empresas orientadas a produtos

Este guia traduz as evidências da literatura e as recomendações derivadas da prática em um conjunto de orientações para apoiar empresas orientadas a produtos na decisão sobre como estruturar a organização quando entram ou avançam na servitização.

O foco é ajudar a empresa a escolher entre separar, integrar ou adotar arranjos híbridos, bem como alinhar estrutura, governança e escalabilidade das ofertas de serviço.

Quando separar

A separação estrutural — por meio de uma unidade dedicada de serviços ou de uma subsidiária — é recomendada quando:

  • O portfólio de serviços ultrapassa a lógica de produto: Quando surgem ofertas orientadas ao ciclo de vida, disponibilidade, desempenho ou resultado, a lógica de operação passa a exigir especialização, autonomia decisória e métricas próprias.
  • Os conflitos entre produto e serviço tornam-se recorrentes e difíceis de resolver: Isso aparece na priorização de recursos, metas comerciais incompatíveis, tensionamentos entre engenharia de produto e engenharia de aplicação ou dificuldades em sustentar SLAs complexos.
  • O back-end de serviços precisa evoluir rapidamente: Monitoramento remoto, analytics, operação de ativos, engenharia de campo e gestão de risco exigem estruturas com foco exclusivo, não subordinadas às prioridades de P&D e manufatura.
  • A empresa precisa criar uma narrativa de valor clara e distinta: Serviços avançados exigem posicionamento, processo comercial próprio e rituais decisórios diferentes.

A separação é mais adequada para empresas que já possuem alguma maturidade em pós-venda, mas precisam consolidar um motor de crescimento baseado em serviços.

Quando integrar

Manter produto e serviço na mesma estrutura funciona bem quando:

  • As ofertas são predominantemente técnicas e relacionadas ao produto: Serviços transacionais, assistência técnica, peças, manutenção corretiva, upgrades e serviços digitais básicos se beneficiam fortemente da proximidade com engenharia e manufatura.
  • O ciclo de vida dos produtos ainda não demanda governança orientada a resultados: Se o cliente não exige disponibilidade, produtividade ou risco compartilhado, a integração preserva eficiência e reduz necessidade de estruturas adicionais.
  • A empresa está em estágios iniciais da servitização: Integração reduz custos de transição, evita duplicação de recursos e permite aprendizado gradual antes de avançar para modelos mais especializados.
  • Existe forte interdependência tecnológica entre produto e serviço: Backlog de bugs, dados, engenharia de campo e roadmaps digitais podem ficar desalinhados se a estrutura for separada antes da hora.

A integração funciona bem, mas tende a atingir limites à medida que o portfólio avança.

Quando usar arranjos híbridos

Os arranjos híbridos combinam integração no front-end com especialização no back-end. Eles são recomendados quando:

  • O serviço precisa da força comercial atual, mas requer uma retaguarda especializada. Por exemplo, para manutenção avançada, operação remota, monitoramento 24/7 ou engenharia de aplicação.
  • A empresa quer preservar a experiência integrada para o cliente, mas precisa proteger recursos críticos para serviços complexos.
  • O portfólio possui ofertas muito distintas, que exigem governança diferenciada — por exemplo, serviços técnicos, soluções de performance e contratos de resultado coexistindo na mesma empresa.
  • O ecossistema inclui concessionárias ou distribuidores, que precisam ser treinados para vender TCO, soluções de disponibilidade e contratos de longo prazo.

Arranjos híbridos são especialmente úteis quando a empresa precisa evoluir sem rupturas, evitando a criação precoce de unidades autônomas, mas também evitando os conflitos do modelo totalmente integrado.

Como alinhar estrutura, governança e scaling dos serviços

Em linha com a revisão conduzida por Peillon (2021), essas orientações não devem ser lidas como uma receita universal, mas como filtros para apoiar decisões contingenciais. A autora mostra que a mesma empresa pode precisar alternar entre maior integração e maior separação ao longo do tempo, conforme mudam o portfólio de serviços, a estratégia e o ambiente competitivo.

Essas orientações não devem ser lidas como uma receita universal, mas como filtros para apoiar decisões contingenciais

A escolha da estrutura deve ser acompanhada de mecanismos de coordenação e expansão consistentes com o nível de maturidade dos serviços:

  • Unificar rituais de decisão e priorização: Revisões de portfólio, roadmaps integrados e comitês conjuntos evitam divergências entre produto e serviço.
  • Criar métricas compartilhadas: taxa de cancelamentos de contratos ou perda de assinantes em um determinado período (churn), disponibilidade, TCO do cliente e margem de contrato precisam entrar no sistema de incentivos e KPIs das áreas críticas.
  • Ajustar o desenho de cargos e a distribuição de responsabilidades: Boa parte das falhas decorre de zonas cinzentas entre vendas, pós-venda, engenharia e digital.
  • Escalar serviços de forma consciente: Escalar sem padronização gera retrabalho, perda de margem e sobrecarga operacional. Escalar tarde demais gera perda de mercado.
  • Padronizar onde possível e customizar onde necessário: A lógica de “customização em massa” — modularizar no back-end e personalizar no front-end — reduz a tensão entre eficiência e adequação.

Customização em massa no contexto de serviços

Customização em massa, no caso de serviços, é a capacidade de entregar soluções personalizadas para diferentes clientes a partir de um conjunto padronizado de módulos, processos e recursos.
A empresa utiliza um back-end altamente estruturado e repetível, enquanto o front-end configura combinações específicas conforme as necessidades do cliente.

Em outras palavras:
• O cliente percebe a personalização.
• A empresa opera com eficiência, escala e padronização.
• A variação acontece na configuração, não na criação do serviço do zero.

Exemplos típicos:
• Contratos de manutenção configurados por pacotes de módulos (horas, SLA, cobertura).
• Soluções digitais combinando analytics, monitoramento e relatórios conforme o setor.
• Serviços de campo com catálogos de intervenções pré-definidas, ajustadas por tipo de equipamento.

O alinhamento entre estrutura, governança e scaling é crítico para evitar tanto a servitização apressada quanto a desservitização.

Perguntas críticas para decidir entre alternativas

Para ajudar líderes a escolher a configuração mais adequada, estas perguntas funcionam como filtros lógicos:

  1. Nosso portfólio de serviços exige autonomia?
    (Se sim, a separação é mais recomendada.)
  2. O que estamos vendendo depende mais do produto ou do resultado?
    (Isto define se o foco deve estar na engenharia de produto ou na engenharia de aplicação.)
  3. Quão maduros estamos em dados, monitoramento, operação remota e gestão de risco?
    (Empresas imaturas não sustentam estruturas sofisticadas.)
  4. Os conflitos entre produto e serviço são episódicos ou estruturais?
    (Conflitos estruturais sinalizam a necessidade de modelos dedicados.)
  5. As concessionárias e distribuidores estão preparadas para vender TCO, disponibilidade e performance?
    (Este fator influencia fortemente a adoção de modelos híbridos.)
  6. Qual é o horizonte estratégico da empresa para serviços?
    (Sem ambição clara, nenhuma estrutura se mantém.)
  7. Temos como provar o valor dos serviços para o cliente e para a alta gestão?
    (Sem evidências, o movimento perde legitimidade.)

Procedimentos e apoio de agentes de IA

Em nenhum momento formulamos uma pergunta diretamente para os agentes de IA generativa solicitando que eles respondessem com base nos seus conhecimentos gerais. Sempre solicitamos que eles usassem como base as referências bibliográficas e websites que selecionamos previamente.

O agente perplexity foi utilizado para descobrir novas referências e como uma resumo inicial delas.

O agente NotebookLM foi utilizado para resumir de forma estruturada as referências inseridas como fontes, segundo diversos prompts específicos.

O chatGPT 5.1 foi utilizado para gerar versões iniciais de do texto; realizar análises críticas sobre textos já editados; encontrar redundâncias e avaliar a lógica do fluxo dos tópicos da seção.

Veja os procedimentos à seguir.

Procedimento antes da iteração com os agentes de IA

Depois de obter uma lista inicial de referências bibliográficas, seus resumos foram lidos, assim como a introdução, seus resultados, discussões e conclusões.

Outras seções da flexM4i também foram utilizadas como referência, citadas no corpo da seção atual.

Conforme o trabalho evoluiu, novas referências bibliográficas foram sendo incorporadas, analisadas e os textos foram atualizados.

Trabalho interativo com o ChatGPT

A criação desta seção teve a duração de mais de 42 horas, com 130  interações “ser humano – máquina (ChatGPT)”, realizadas ao longo de seis dias. A conversa resultou em mais de 340 páginas de interação e cerca de 76 mil palavras geradas. A extensão do conteúdo deveu-se, em grande parte, à necessidade de construir, revisar e ajustar cada trecho da seção em um nível de detalhamento elevado, com foco em clareza conceitual, profundidade teórica e adequação prática. Os prompts foram longos também bem detalhados.

Após algumas interações, foi definida uma primeira versão do sumário da seção, a partir de uma proposta inicial realizada pelo autor. Iniciou-se então uma edição conjunta “ser humano – máquina” de cada tópico. Ao longo do desenvolvimento, o sumário foi refinado em múltiplas rodadas até atingir uma estrutura final, com tópicos organizados em subtópicos curtos, compatíveis com o modelo de microlearning da flexM4i.

Em nenhum momento o autor solicitou que o ChatGPT gerasse respostas com base em seus conhecimentos gerais. Todo o conteúdo foi elaborado a partir de materiais fornecidos, trechos comentados ou instruções precisas baseadas em análises do autor. Os textos produzidos passaram por diversas iterações, com o autor sugerindo ajustes, criticando formulações e, ao final, realizando pessoalmente a edição final de todos os blocos de conteúdo.

O autor conferiu sempre se os textos gerados pelo ChatGPT estavam alinhados com as fontes originais. Quando surgiam inconsistências ou dúvidas, ele fazia a checagem diretamente nas publicações de referência antes de aprovar qualquer trecho.

Nesses momentos, para garantir que o chatGPT estava utilizando as fontes fornecidas, já que ele possui limitações para indicar de onde ele tirou cada trecho de texto avaliado, utilizamos em conjunto o NotebookLM da Google para conferir os trechos das fontes utilizadas.

Esse processo exigiu iterações intensas e repetitivas, com refinamento textual, ajustes conceituais e reorganização de argumentos. Em vários momentos, versões intermediárias foram reanalisadas no próprio ChatGPT, que indicava melhorias, tensionamentos ou oportunidades de aprofundamento. O autor avaliava criticamente essas sugestões, nem sempre concordando, e frequentemente propunha soluções alternativas, mantendo sempre o controle final da redação.

Foi solicitado ao ChatGPT que não aceitasse automaticamente as propostas do autor, mas que realizasse uma análise crítica, sugerisse alternativas e propusesse reformulações embasadas nos conteúdos utilizados. Quando aplicável, o autor indicava práticas baseadas em sua própria experiência, e o ChatGPT as incorporava, respeitando a distinção entre conteúdo empírico e referenciado.

Diversos conteúdos foram atomizados em tópicos (bullets) para facilitar a leitura. Sempre evitamos editar parágrafos longos.

Durante todo o processo, foi enfatizado que o ChatGPT não deveria reescrever blocos inteiros automaticamente, mas sim identificar pontos de melhoria e sugerir correções localizadas, com justificativas. A edição final foi sempre realizada manualmente pelo autor desta seção.

Referências

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