Glossário: Problema

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Problema é uma confrontação entre um solucionador e uma tarefa, onde o sucesso depende da criação de uma representação interna (espaço do problema) e de uma busca seletiva e heurística através de diferentes estados de conhecimento até encontrar a solução (Simon & Newell, 1971).

(no contexto do design e resolução de problemas) Um problema é uma tarefa de design subjetiva pessoalmente construída e estruturada, que consiste na formulação de um “espaço do problema” a partir da interpretação de informações iniciais (o briefing). O designer decide o que fazer e quando fazer com base na sua própria interpretação da situação, dos recursos disponíveis (como o tempo) e dos seus próprios objetivos, visando a criação de um par correspondente com uma solução, ou seja, o problema é a dimensão que busca um encaixe (matching) com a dimensão da solução. Ele só se torna plenamente definido quando um “enquadramento” (framing) cria uma ponte estável com uma ideia de solução (Dorst & Cross, 2001).

Um problema não é uma entidade objetiva ou estática fornecida inicialmente (como um briefing ou tarefa objetiva fornecida), mas sim uma construção dinâmica e subjetiva que resulta da interação entre o solucionador e o ambiente da tarefa. Ele é definido tanto pela representação interna do indivíduo (espaço do problema) quanto pelo processo de co-evolução com a solução (Dorst & Cross, 2001).

Principais aspectos (Dorst & Cross, 2001):

  • Natureza construída: O problema é uma tarefa pessoalmente percebida e construída pelo solucionador, que interpreta as demandas iniciais com base em seus próprios objetivos, recursos disponíveis (como tempo) e conhecimentos prévios.
  • Co-evolução: Ao contrário de processos lineares, o problema e a solução desenvolvem-se e refinam-se simultaneamente. Ocorrem interações constantes onde a exploração do espaço da solução ajuda a estruturar e definir o próprio espaço do problema.
  • Enquadramento (framing): A definição final de um problema ocorre através do enquadramento, um ato criativo onde o designer estabelece uma perspectiva específica para a tarefa. Isso permite criar uma “ponte” que une um par específico de problema-solução.
  • Instabilidade inicial: O espaço do problema é inerentemente instável durante grande parte do processo, estabilizando-se apenas quando um insight ou conceito-chave permite o pareamento com uma solução viável.
  • Manipulação da tarefa: Resolver um problema frequentemente envolve manipular e reinterpretar as restrições originais para tornar o desafio mais instigante ou tratável dentro do contexto e do tempo disponíveis.
  • Espaço do Problema vs. Ambiente da Tarefa: Enquanto o “ambiente da tarefa” é a descrição objetiva do desafio, o “espaço do problema” é a representação interna (estados de conhecimento) que o sujeito utiliza para navegar em busca da resposta.

(no contexto dos Métodos de Estruturação de Problemas – PSMs). Um problema não é considerado um ponto de partida fixo ou um dado pré-existente. Ele é o resultado de um processo de construção da situação, no qual os participantes clarificam seu predicado para convergir em um problema mútuo acionável. Devido a essa natureza fluida, os autores sugerem que é mais apropriado referir-se a diferentes dimensões de uma “situação problemática” em vez de “problemas” isolados (Mingers & Rosenhead, 2004).

(no contexto de inovação social e pública). Um problema não é um dado estático, mas sim o resultado de um processo ativo de “ajuste do problema” (problem setting), no qual uma “situação problemática” inicial, vaga e confusa, é convertida em um problema estruturado através do ato de nomear os elementos de atenção e enquadrar o contexto em que serão abordados (van der Bijl-Brouwer, 2019).

Características principais (van der Bijl-Brouwer, 2019):

  • Complexidade sistêmica: Problemas sociais são definidos por sua natureza complexa, dinâmica e interconectada, situando-se na interseção de diferentes contextos sociais, sistemas e áreas de preocupação. Eles envolvem uma multiplicidade de partes interessadas (stakeholders), atores e sistemas, exigindo uma visão que considere o sistema como um todo em vez de fragmentá-lo em partes isoladas.
  • Imprevisibilidade e fluxo: Diferente de problemas meramente “complicados”, os problemas sociais complexos apresentam um estado constante de imprevisibilidade e fluxo, o que impede soluções de “uma paulada só” e exige abordagens experimentais de “sondar, sentir e responder”.
  • Natureza “insolúvel ou persistente” (wicked): Admite-se que problemas sociais nunca são totalmente resolvidos; na melhor das hipóteses, eles são “re-resolvidos” repetidamente, dado que são abertos e instáveis por natureza.
  • Co-evolução não-linear: A definição do problema evolui em padrões não-lineares juntamente com a solução. Isso significa que o entendimento do problema muda conforme potenciais soluções são prototipadas e testadas, em um processo de interdependência entre o espaço do problema e o espaço da solução.
  • Enquadramento (framing) como sentido: O problema é delimitado através de um enquadramento, que funciona como um padrão organizacional ou conjunto de princípios usados para identificar e dar sentido a uma situação. Esse enquadramento é movido por pesquisas qualitativas (como etnografia), testes de soluções, ferramentas de pensamento sistêmico e princípios que buscam abrir o briefing original para explorar novas possibilidades.
  • Foco na necessidade humana: A redefinição de um problema social deve começar pela busca da compreensão profunda das necessidades dos usuários e cidadãos, reconstruindo o desafio “do zero” a partir dessa perspectiva.
Na prática atual de inovação, quando se desenvolve (design) uma proposta de valor, utiliza-se o termo “dores”, que são consideradas descrições do problema, a partir da interpretação da tarefa (job to be done) que o cliente (stakeholders) está tentando realizar, independentemente de uma solução.

Essa(s) tarefa(s) é(são) enquadrada(s) a partir do entendimento da situação atual, ou seja, do espaço do problema.


O termo “dor” traz uma conotação “mais humana” para a descrição de um problema, no contexto do user centered design. 


Simon, H. A., & Newell, A. (1971). Human problem solving: The state of the theory in 1970. American psychologist, 26(2), 145-159

Dorst, K., & Cross, N. (2001). Creativity in the design process: Co-evolution of problem-solution. Design Studies, 22(5), 425–437. https://doi.org/10.1016/S0142-694X(01)00009-6

Mingers, J., & Rosenhead, J. (2004). Problem structuring methods in action. European Journal of Operational Research, 152(3), 530–554. https://doi.org/10.1016/S0377-2217(03)00056-0

van der Bijl-Brouwer, M. (2019). Problem framing expertise in public and social innovation. She Ji: The Journal of Design, Economics, and Innovation, 5(1), 29–43. https://doi.org/10.1016/j.sheji.2019.01.003

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