Inovação, valor, stakeholders e faces dos clientes
flexM4I > abordagens e práticas > Inovação, valor, stakeholders e faces dos clientes (versão 2.2)
Autoria: Henrique Rozenfeld ([email protected])
O que a inovação gera
Já vimos que o termo Inovação pode indicar uma ação ou o resultado dessa ação. Esses resultados podem ser:
- novas ofertas, que contenham produtos e/ou serviços, que proporcionem novas experiências dos clientes e são caracterizados por uma nova proposição de valor
- novos elementos do negócio, que proporcionem ou melhorem a criação, entrega e captura de valor, ou seja, eles concretizam as capabilidades da empresa
- novos empreendimentos (novos negócios de risco), que ofereçam uma nova proposição de valor
Seguem alguns exemplos de cada tipo de resultado.
Novas ofertas
O lançamento de novas ofertas, compostas por produtos e/ou serviços, tem o objetivo de oferecer benefícios para os stakeholders, com foco nos clientes. Em outras palavras, geralmente, uma nova proposta de valor resulta do lançamento de novas ofertas.
Exemplo: lançamento de um celular com novas funcionalidades, câmera com maior resolução e bateria de maior durabilidade, oferecendo novos benefícios aos clientes que fazem com que eles estejam dispostos a comprar.
Novos empreendimentos (novos negócios de risco - venture)
Um novo negócio de risco (venture) pode gerar uma startup, possui sempre novas ofertas e, portanto, resulta em novas propostas de valor.
Por exemplo, veja a criação do Nubank no Brasil. No início era uma fintech que apostava na excelência de serviços somente via aplicativos de celular, com baixo custo operacional, que permitia oferecer serviços diferenciados. A nova proposta de valor possibilitou várias experiências do usuário, que fizeram com que muitas pessoas percebessem o valor, tais como, facilidade de abertura de conta; o dinheiro “parado” na conta corrente rende mais do que algumas aplicações dos bancos tradicionais; funcionalidades e usabilidade do aplicativo; para nomear poucos exemplos. Isso possibilitou um crescimento significativo da sua base de clientes.
| Veja que empreendedorismo divide-se em dois tipos: – Empreendedorismo independente: quando pessoas fundam startups – Empreendedorismo corporativo: que inclui, entre outras alternativas, o desenvolvimento de negócios de risco internos (via Corporate Venture Building) ou externos (via Corporate Venture Capital) |
Novos elementos do negócio levam a novas capabilidades da empresa
Elementos de negócio podem ser: as ofertas (produtos e/ou serviços), processos, pessoas, organização, recursos, tecnologia, ecossistema, parceiros ou modelos de negócio (veja a visão sistêmica da empresa e seu ecossistema).
A gestão da inovação pode orquestrar a criação/mudança, implementação e monitoramento de novas capabilidades da empresa. Fortalecer essas capabilidades por meio de projetos de inovação em elementos de negócio melhora o desempenho atual e cria condições para novos negócios e ofertas.
Exemplos:
- a digitalização da produção (inovação neste elemento de negócio) → pode resultar na melhoria da excelência operacional (menor custo) e, assim, → aumentar a lucratividade para os acionistas (valor para esses stakeholders);
- um novo canal de atendimento aos clientes (inovação neste elemento de negócio) → pode resultar em uma melhor percepção de valor pelos clientes;
- um processo de entrega de conteúdo virtual, ao invés de impresso (inovação neste elemento de negócio) → pode diminuir a produção de CO2 e, portanto, → diminuir o impacto ambiental do efeito estufa → que resulta em benefícios para a sociedade (valor para esses stakeholders);
- um novo processo de marketing (inovação neste elemento de negócio) → pode resultar em uma melhor percepção de valor pelos clientes;
- a inclusão de indicadores de desempenho individuais dos colaboradores (inovação neste elemento de negócio), que mensuram ações sociais realizadas por eles, com consequência no bônus pessoal, → aumenta a possibilidade de realização de ações que diminuam a desigualdade na sociedade (valor para esses stakeholders).
| Leia mais na seção específica sobre “Elementos de negócio concretizam as capabilidades da empresa”, que mostra mais exemplos e define a relação entre elementos de negócio e capabilidades. |
Esses três tipos de resultados da inovação estão alinhados com a definição de gestão da inovação usada na flexM4i, que começa com:
A gestão da inovação,
– é responsável por viabilizar e conduzir a criação/mudança, implementação e monitoramento de:
- novas ofertas (produtos e/ou serviços)
- novos negócios
- novas capabilidades da empresa, incluindo as de inovação
| Conheça a definição completa do que é gestão da inovação. |
O novo pode resultar da mudança de algo existente
O “algo novo” resultante da inovação (como ação) pode ser “algo” já existente que foi modificado, ou seja, a inovação:
- acrescenta características que não existiam anteriormente, ou
- elimina e/ou modifica algumas características existentes.
Imagine que o produto seja um eletrodoméstico que sua empresa já forneça. A inovação pode compreender novas funcionalidades do produto (por exemplo, uma geladeira que pode ser transformada temporariamente em um freezer).
Imagine que o produto seja um plano de seguros contra acidentes. A inovação pode envolver o desenvolvimento de novos serviços que trazem benefícios adicionais aos segurados (por exemplo um plano que cobre acidentes de bicicleta em viagens ao exterior).
| A mudança pode ser incremental, uma melhoria, ou pode ser bem mais significativa, uma transformação, como mostramos no tópico “Qual a diferença entre mudança, melhoria e transformação?”. |
Uma inovação exige outras inovações
Uma inovação nas ofertas quase sempre desencadeia mudanças em outros elementos de negócio, gerando novas propostas de valor. Em outras palavras, ao inovar em um aspecto, frequentemente precisamos inovar em outros também. A inovação raramente acontece de forma isolada — salvo em casos incrementais muito simples, que ainda assim podem demandar, por exemplo, uma campanha diferenciada de marketing em novos canais (outra inovação).
Exemplo: nova máquina produtiva conectada via IoT (inovação de produto) → criação de um novo canal de comunicação em nuvem (inovação em elemento do negócio) → envio de instruções de operação e manutenção preditiva para clientes B2B.
| Leia mais no tópico “Um tipo de inovação sempre ocorre com outros tipos de inovação”. |
Ponto comum - VALOR
Um aspecto comum entre esses resultados e na própria definição de gestão da inovação é o conceito de valor.
Valor é a percepção do cliente do trade-off entre o que ele recebe (os benefícios da oferta: produto, serviço e experiência) e o que ele dá em troca.
| Veja as definições de valor no nosso glossário. |
No caso de inovações comerciais, a percepção de valor dos clientes faz com que eles estejam dispostos a realizar sacrifícios (normalmente com desembolso de valores monetários) para ter acesso e usar a inovação.
Outros stakeholders (interessados ou pessoas que podem impactar na inovação) participam da criação e implementação da inovação, também com sacrifícios (gastando tempo, esforço e recursos), pois percebem um valor futuro, uma vez que eles também esperam receber benefícios da inovação (salário, lucro, satisfação de propósito cumprido). Cliente é um dos stakeholders.
Na verdade, a razão de existência de uma empresa é prover valor para os clientes, mas sem descuidar dos outros stakeholders.
Stakeholders e percepção de valor
O valor está presente em todos os tipos de inovação e é percebido de formas distintas pelos diferentes stakeholders.

Figura 165: tipos de valores relacionados com os tipos de stakeholders
Cada stakeholder percebe o valor de forma diferente:
- os sócios e dirigentes da empresa que inova e cria algo novo, percebem os valores comerciais e financeiros, que mantém a empresa operante e dando lucro para sobreviver durante muitos anos, e também o valor motivacional de a empresa cumprir o seu propósito (quando ele é explícito e for além do comercial);
- os clientes na relação B2C (empresa para consumidor), que adquirem o “algo novo”, ou os usuários que usufruem do “algo novo”, percebem os valores funcionais, sociais e emocionais, ao atenderem seus desejos e necessidades. Neste caso, é primordial prover uma ótima experiência ao usuário com a inovação.
- os clientes na relação B2B (empresa para empresa), que adquirem o “algo novo”, percebem os valores funcionais e comerciais, ao atenderem às necessidades do seu negócio;
| Não esqueça que o ponto focal da entrega de valor são os clientes. |
- os clientes internos (colaboradores) e parceiros, que contribuem para criação, entrega e gestão do ciclo de vida do “algo novo”, percebem os valores comerciais, emocionais e motivacionais, ao
- estarem empregados e recebendo os seus salários, em condições dignas de trabalho, e com a sensação de estarem contribuindo para a criação do “algo novo”;
- ao manterem seus negócios, por meio das receitas resultantes das transações comerciais relacionadas com o “algo novo”;
- aos atenderem seus propósitos individuais, no caso de identificação com o propósito da empresa ou no caso de organizações não comerciais.
- a sociedade, onde o “algo novo” será utilizado, percebe valores sociais, econômicos e ambientais, tanto no recolhimento de impostos a serem revertidos para a sociedade, como no impacto causado pelo “algo novo”: nas áreas de saúde e educação, mitigação da pobreza, de impacto social, ambiental e econômico, ajuda humanitária etc. O impacto pode ser negativo. Nesse caso, a percepção negativa deve indicar medidas para minimizar ou eliminar esses impactos.
Faces dos clientes
O cliente pode assumir diferentes “faces” no processo de compra.
No relacionamento B2C, o cliente (usuário), provavelmente é o mesmo que toma a decisão de compra e que efetua a compra.
Mas no relacionamento B2B, geralmente, o cliente (usuário) é um, o que toma a decisão de compra é outro e o comprador é do departamento de compras. Por isso, dizemos que o cliente “tem várias faces” (como ilustra a próxima figura).

Figura 359: o cliente pode ter várias faces
Por exemplo, imagine que sua empresa produz impressoras multifuncionais. Quem são seus clientes?
- as pessoas que irão realizar cópias, os usuários, têm algumas necessidades;
- o tomador de decisão, que vai liberar o valor de compra, quer atender às necessidades dos usuários, mas ele mesmo tem outras necessidades relacionadas com as verbas disponíveis, deseja informações sobre alternativas etc.;
- já o comprador deve ter metas a cumprir, com relação a quanto ele consegue abaixar o preço na negociação. Ele deve então pensar no menor dispêndio para a empresa no ciclo de vida (uso) dentro da empresa. Para isso, ele compara uma copiadora com outras, ou mesmo pensa em um outro tipo de transação, como por exemplo, alugar uma máquina.
Todas essas diferentes necessidades (“faces”) desses clientes devem ser levadas em consideração quando você for definir sua proposição de valor.
Elementos de valor
Não confunda com os elementos de negócio citados anteriormente.
Os elementos de valor representam 30 valores fundamentais, mas que não são universais, pois é impossível criar ofertas de produtos e serviços que ofereçam todos esses valores.
Exemplos desses 30 valores são:
- funcionais: reduzir esforços, simplificar, organizar, poupar tempo, integrar, reduzir riscos, conectar, apelo sensorial, informar, ganhar dinheiro, reduzir custos’
- emocionais: valor terapêutico, entretenimento, reduzir ansiedade, nostalgia, estética, recompensa, bem-estar;
- de mudança de vida: sensação de pertencimento, motivação, esperança, segurança na aposentadoria, sensação de melhoria pessoal
- de impacto social: auxiliar outras pessoas ou a sociedade de uma forma mais ampla
Quando uma empresa consegue ofertar um produto e/ou serviço, que possui uma combinação de alguns desses elementos, essa oferta resulta em uma maior lealdade do cliente; desejo de consumir uma determinada marca e um crescimento sustentável de receitas (Almquist, Senior & Bloch, 2016).
A presença de alguns elementos de valor, obviamente, melhoram a percepção de valor dos stakeholders, com foco nos clientes.
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Visite a seção específica sobre elementos de valor para conhecer a diferença entre elementos da relação B2B e B2C e baixar um checklist dos elementos desses dois tipos de relações em português. A figura abaixo,extraída da publicação original, ilustra a representação dos elementos da relação B2C.
Figura 1133: pirâmide dos elementos de valor na relação B2C (clique na figura para abrir em outra aba) Na seção citada exploramos mais o que são os elementos de valor e sua relação com desejos e requisitos de clientes. |
Referências
Almquist, E., Senior, J., & Bloch, N. (2016). The Elements of Value. Harvard Business Review, 53(9), 1689–1699.
Thiel, Cristiane Rocha. (2021). Como entender necessidades e desejos dos clientes. Disponível em: https://cristianethiel.com.br/como-entender-necessidades-e-desejos-dos-clientes/ Recuperado em 15 de agosto de 2025.

