Comunidades e linhas de pesquisa em servitização
Apresenta uma síntese das publicações que identificaram comunidades e linhas de pesquisa em servitização.

Está seção é voltada para as pessoas interessadas no nível de detalhamento avançado e complementa a seção principal sobre servitização.

Introdução

A pesquisa em servitização constitui um campo dinâmico e em rápida evolução, no qual novas perspectivas conceituais, empíricas e metodológicas são constantemente publicadas em periódicos científicos de destaque. Essa vitalidade reflete o interesse crescente da comunidade acadêmica em compreender como empresas tradicionalmente orientadas a produtos transformam-se em provedoras de soluções integradas de produtos e serviços, frequentemente apoiadas por tecnologias digitais e novos modelos de negócio.

Esta seção tem o objetivo de reunir e sintetizar contribuições relevantes da literatura científica, organizando-as em torno das principais comunidades acadêmicas e linhas de pesquisa nesse tema. O conteúdo será continuamente atualizado, incorporando novos resultados e análises à medida que forem publicados, de modo a manter a conexão entre a prática da servitização e o conhecimento científico que a fundamenta.

Ao acompanhar essas atualizações, buscamos também contribuir para a integração entre pesquisadores e profissionais, criando uma ponte entre a reflexão teórica e a aplicação prática nas empresas.

Nota: Um tema de destaque nas pesquisas recentes é a aplicação da inteligência artificial na servitização, abordada em uma seção específica da flexM4i que explora as oportunidades e desafios dessa convergência tecnológica.

Comunidades de pesquisa em servitização

O campo da servitização é estruturado por diferentes comunidades, de acordo com o interesse compartilhado a partir de problemas analisados em uma mesma área de conhecimento.

Lightfoot et al. (2013) reconhecem cinco comunidades: 

  • Marketing de serviços:  foca em uma perspectiva de gestão do relacionamento com o cliente na provisão de serviços;
  • Gestão de serviço:  foca na organização de serviços e na cultura organizacional;
  • gestão de operação: enfatiza na gestão operacional e estratégia na entrega de combinação de produtos e serviços;
  • PSS: foca no planejamento, desenvolvimento e efetiva entrega de um PSS, podendo ter uma ênfase no desenvolvimento de PSS sustentável.
  • Gestão de ciência de serviços e engenharia: foca em prover um melhor entendimento de sistemas de serviços complexos, considerando a integração de pessoas, tecnologia e negócios.

Rabetino et al. (2018) definiram seis grupos estruturados em três cluster:

  • PSS sustentável: foca na configuração de PSS sustentável nos contextos B2B e B2C; no impacto do PSS no ambiente e para o crescimento econômico; e nas implicações políticas e de impacto social da produção e consumo sustentáveis. 
  • PSS design: foca no desenvolvimento de soluções integradas e combina abordagens orientadas à engenharia e ao negócio. Os aspectos centrais discutidos estão relacionados às estratégias de servitização, às capabilidades e gerenciamento para a oferta de serviços e ao posicionamento da cadeia de valor.
  • Soluções com foco nos consumidores: incluem uma perspectiva de marketing para oferta das proposições de valor de PSS;
  • Gestão de operações na transição para oferta de serviços: que foca nas estratégias operacionais, nos serviços pós-venda, no gerenciamento da cadeia de valor, no gerenciamento da mudança, e no próprio processo de transformação.
  • Soluções integradas com viés organizacional: foca em analisar assuntos organizacionais e operacionais relacionados ao desenvolvimento organizacional e de capabilidades durante a implementação de modelos negócios para a oferta de soluções integradas.
  • Ciência de serviços: é uma comunidade multidisciplinar, que combina o entendimento organizacional, tecnológico e humano para estudar como os sistemas de serviços podem ser configurados para acelerar a inovação, e analisa como o valor é co-criado dentro desses sistemas. Adota ideias da lógica dominante de serviços (SDL, service-dominant logic), que sugere que o valor é criado pelo cliente ao experienciar ou usar o produto por meio de serviços, ao invés do valor ser determinado pelo provedor.

Os três clusters que agregam esses seis grupos são:

  • PSS : clusters de sustentabilidade e design/desenvolvimento de PSS
  • solution business: clusters de soluções ao cliente, soluções integradas baseadas em projeto e operações na transição,
  • ciência de serviço

Rabetino et al. (2021) falam em “tribos” do campo de servitização e identificam sete sub-streams latentes:

  • Transição para serviços: foca no processo pelo qual fabricantes migram de modelos de negócio baseados em produtos para ofertas orientadas a serviços, abordando barreiras organizacionais, riscos de desempenho e mudanças culturais necessárias nessa transformação.
  • Design e desenvolvimento de PSS: concentra-se em metodologias, ferramentas e práticas de engenharia e design para conceber sistemas produto-serviço, incluindo integração de componentes, customização, digitalização e inovação orientada ao usuário.
  • Modelos de negócio e estratégia: explora como a servitização altera ou gera novos modelos de negócio, analisando proposições de valor, lógica de captura de valor, contratos de performance e a conexão com estratégias competitivas.
  • Sustentabilidade: investiga como a servitização e o PSS contribuem para a sustentabilidade ambiental, econômica e social, discutindo políticas públicas, consumo responsável, eficiência de recursos e impactos de longo prazo.
  • Soluções integradas: estuda o provimento de soluções completas que combinam produtos, serviços e software, enfatizando a entrega de valor de ponta a ponta, muitas vezes em projetos complexos ou contextos B2B.
  • Ciência de serviços: aborda a configuração de sistemas de serviços complexos a partir de uma perspectiva multidisciplinar (gestão, TI, engenharia), focando na co-criação de valor, ecossistemas e integração de pessoas, processos e tecnologia.
  • Marketing e lógica dominante de serviço: analisa a servitização sob a lente do marketing de serviços e da lógica dominante de serviço (Service-Dominant Logic), examinando como o valor é co-criado nas interações com clientes e redes de stakeholders.

E a comunidade de design de serviços?

Ao analisar conjuntamente as comunidades de pesquisa identificadas por Lightfoot et al. (2013), Rabetino et al. (2018) e Rabetino et al. (2021), observa-se que o design de serviços não é tratado de forma explícita como uma comunidade independente no campo da servitização.

Lightfoot et al. (2013) reconhecem a ciência e engenharia de serviços (SSME) como uma das comunidades, que engloba preocupações com a configuração de sistemas complexos de serviços. É possível interpretar que parte das abordagens de design de serviços estaria implicitamente contida nesse grupo, mas o foco está mais em modelagem sistêmica do que em práticas de design centradas no usuário.

Rabetino et al. (2018) também não destacam o design de serviços como campo separado. O “design e desenvolvimento de PSS” surge como um cluster dentro da comunidade de PSS, voltado a ferramentas de engenharia e integração de soluções. Mais uma vez, a dimensão do design aparece diluída, sem uma distinção clara em relação à comunidade internacional de service design, que opera com seus próprios métodos, conferências e revistas.

Por fim, Rabetino et al. (2021) avançam ao identificar uma tribo específica de “design e desenvolvimento de PSS”. No entanto, esse foco permanece restrito ao design de sistemas produto-serviço, geralmente ancorado em práticas de engenharia e sustentabilidade. O design de serviços, como entendido em áreas como design thinking e service design (com ênfase em experiência do usuário, jornada do cliente e prototipagem de serviços), não é explicitado como tribo autônoma. Porém, a comunidade em Ciência de Serviços (Service Science) combina a compreensão organizacional, tecnológica e humana para estudar como os sistemas de serviço devem ser configurados e evoluir. O objetivo é fomentar a inovação e a qualidade do serviço e entender como o valor é co-criado dentro desses sistemas dinâmicos

Assim, pode-se concluir que os três artigos não reconhecem explicitamente a comunidade de design de serviços. Ainda assim, há espaços onde esse campo pode ser considerado implícito: no grupo de ciência de serviços (Lightfoot et al., 2013), no cluster de design de PSS (Rabetino et al., 2018) e na tribo de design e desenvolvimento de PSS ou ciência de serviços (Rabetino et al., 2021). Isso evidencia uma lacuna relevante, já que o design de serviços constitui hoje uma comunidade ativa, com agendas próprias e conexões crescentes com a servitização, mas que não foi plenamente incorporada nessas classificações acadêmicas.

Linhas de pesquisa em servitização

Existem diversas comunidades que pesquisam em servitização. Rabetino et. al. (2021) resumiram as pesquisas em sete linhas com seus focos, princípios e práticas, que apresentamos a seguir. Essas linhas trazem possíveis temas para pesquisas futuras, mas aconselhamos que o artigo original seja consultado.

Do ponto de vista prático, já que a servitização já é uma abordagem consolidada, uma empresa pode encarar os tópicos dessas linhas de pesquisa como uma inspiração.  Uma jornada de inovação, com base na servitização, pode aplicar uma combinação desses princípios e práticas, de acordo com os fatores contextuais da empresa. 

  • alinhamento estratégico visando uma transição para serviços: a orientação para serviços torna-se uma condição necessária para diferenciação, vantagem competitiva e desempenho em ambientes competitivos complexos, tais como de comoditização dos produtos e aumento de competidores
  • relacionamento com clientes e a lógica de negócio na introdução de serviços na relação B2B:  foco em marketing e na lógica dominante de serviços. A função de vendas da empresa (que é composta pela organização, papéis e competências) precisa ser adaptada para a introdução de serviços na relação B2B. Neste caso, é importante ter um gerenciamento de contas (de clientes) que coordene as vendas. Os fabricantes devem usar estratégias diferentes para comunicar os benefícios únicos das suas ofertas de produtos associados aos serviços. O sucesso da introdução de serviços neste contexto depende da boa reputação da marca, competência em serviços e um forte relacionamento entre vendedor e comprador
  • entrega e marketing focados em soluções: necessidade de novas competências e ajustes organizacionais nos processos e recompensas para poder criar soluções inovadoras que resultem em novos modelos de negócios. Entregar soluções exige que a empresa mude o foco de produto para uma orientação centrada no cliente. Essa mudança necessita novas competências técnicas e de integração, tais como consultoria e parcerias. Orientação centrada no cliente requer um alinhamento entre estratégia, estrutura organizacional, pessoas, recompensas, processos e integração de conhecimentos. É importante cultivar o relacionamento com os clientes para poder co-criar valor com uma rede de clientes.
  • soluções complexas em bens de capital: baseada no envolvimento intenso de vários provedores e dos clientes, durante todo o ciclo de vida das soluções integradas, para que elas sejam customizadas para as necessidades dos clientes. Necessita de um novo modelo de negócio orientado ao cliente e a obtenção das novas capabilidades, tais como: consultoria, financiamento dos clientes, operação das soluções e gestão de parcerias. 
  • gestão de contratos baseados em desempenho: existem duas vertentes nesta linha. 1) administração de parcerias público-privadas (PPP), nas quais os provedores precisam ser capazes de formular contratos precisos e desenvolver um relacionamento de confiança com os tomadores de decisão, o que implica em mudanças na estrutura de entrega dos serviços. Existem muitos desafios de governança nesta vertente. 2) as receitas são baseadas nos resultados da operação da solução. Dois elementos essenciais nesta alternativa são as estratégias de financiamento e precificação. Neste modelo de negócio os desafios principais estão na negociação do contrato e nos riscos operacionais de implementação da solução. Esses modelos exigem um alinhamento com os fornecedores e podem incluir a manutenção e operação da solução, caracterizada por uma relação de dependência entre provedor e cliente.
  • gestão das operações e cadeia de suprimentos para entrega de serviços no pós-venda: embora a “configuração”  da cadeia de suprimentos no pós-venda tornou-se um assunto central, não há uma configuração, apenas configurações contingenciais, que são diferentes de acordo com os fatores contextuais. A cadeia de suprimentos dos serviços precisa ser mais responsiva do que a de produto e deve ser baseada em dados em tempo real. A gestão da informação e da capacidade de longo prazo são críticas. A gestão do ciclo de vida também é necessária, a qual envolve escolhas estratégicas com relação à qualidade e precificação do produto / serviço. Cada fase do ciclo de vida apresenta desafios específicos.
  • servitização centrada em produto: os pesquisadores desta linha focam no entendimento de características essenciais da servitização das operações da manufatura, que inclui a reconfiguração dos processos de produção e de suporte, práticas, princípios e estruturas para entregar produtos e serviços associados de forma eficiente e eficaz. A servitização é viabilizada pela tecnologia, integração vertical e o desenvolvimento de habilidades e pessoas.  A criação de valor é baseada no design simultâneo do produto, serviço e organização, que inclui o desenvolvimento de estruturas específicas e as capabilidades de inovação em serviços para poder competir por meio de serviços. Às vezes, existem riscos financeiros envolvidos (o paradoxo da servitização) e as empresas de manufatura enfrentam riscos na implementação do modelo de negócio, que incluem reconhecer e comunicar as expectativas e valores dos clientes, o design do PSS e a mudança da organização voltada para serviços.

Referências

Lightfoot, H., Baines, T., & Smart, P. (2013). The servitization of manufacturing: A systematic literature review of interdependent trends. International Journal of Operations & Production Management, 33(11/12), 1408–1434.

Rabetino, R. et al.(2018). Structuring servitization-related research. International Journal of Operations & Production Management, 38(2), 350–371. doi: 10.1108/IJOPM-03-2017-0175

Rabetino, R., Kohtamäki, M., Brax, S. A., & Sihvonen, J. (2021). The tribes in the field of servitization: Discovering latent streams across 30 years of research. Industrial Marketing Management, 95, 70–84. doi: 10.1016/j.indmarman.2021.04.005

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