Job-to-be-done
Boas práticas de entrevistas para levantamento do job-to-be-done
Orienta como conduzir entrevistas focadas no job que o executor tenta realizar em ambientes B2B. Cobre a investigação do job funcional, das circunstâncias, dos outcomes, das dores, das alternativas atuais (gambiarras e não-consumo), dos aspectos emocionais e sociais e dos stakeholders relacionados. Complementa as práticas gerais de entrevista empática com o que diferencia o levantamento de jobs-to-be-done.

Introdução 

Essas boas práticas de entrevista formam um guia a ser utilizado no “método do job-to-be done em ambientes B2B”.

Elas podem estar enviesadas pelas atividades e template utilizado no método citado. Porém, possuem um aspecto amplo, que permite que sejam adaptadas para aplicações em outros levantamentos de job-to-be-done.

A práticas gerais de entrevistas, que também devem ser consideradas em entrevistas para job-to-be-done, estão na seção “Boas práticas para condução de entrevistas empáticas para compreensão do cliente”.

Recomendamos que você conheça as práticas gerais antes de aplicar as recomendações a seguir.

Após conhecer as boas práticas a seguir, acesse o tópico final desta seção “Material de apoio” para você fazer um download de um guia para aplicação dessas práticas em campo.

Localização na flexM4i

A figura abaixo mostra a relação desta seção com outras seções e dois templates relacionados com o job-to-be-done em ambientes B2B.

Figura 1478: Seções da flexM4i e dois templates relacionados com o job-to-be-done em ambientes B2B

Clique na figura para abrir o mapa de conteúdo correspondente em outra aba, que você pode baixar para acessar as seções e os templates da figura.

Boas práticas

As boas práticas a seguir cobrem o que diferencia uma entrevista JTBD de outras conversas com clientes: manter o foco no trabalho que o executor tenta realizar, capturar as evidências que alimentam cada o registro de um job-to-be-done e evitar o desvio para discussão de soluções, produtos ou fornecedores.

Cada prática inclui alguns exemplos de perguntas que servem como referência rápida durante a conversa. No entanto, procure formular questões abertas alinhadas com o negócio que você está analisando.

Considere as seguintes práticas gerais de entrevistas:
– Preparar um roteiro flexível e
– Observar o contexto, os artefatos e o ambiente.

Não considere essas práticas como roteiro a ser seguido linearmente. Sempre que possível, a formulação das dores e dos outcomes deve ser feita na análise posterior, com base nas evidências coletadas, e não durante a entrevista.

Começar pelo executor e pelo contexto, não pela solução

A entrevista JTBD deve compreender quem está tentando realizar algo, em qual situação, com quais restrições e com quais critérios de sucesso.

Boas práticas:

  • identificar quem é o executor do job;
  • entender o papel do executor no processo;
  • investigar o contexto em que o job aparece;
  • mapear eventos que disparam a necessidade;
  • evitar começar perguntando sobre o produto, serviço ou fornecedor;
  • perguntar primeiro sobre a situação e a tarefa que a pessoa tenta realizar.

Exemplos de perguntas:

  • “Conte-me sobre uma situação recente em que você precisou realizar essa atividade.”
  • “Como esse trabalho entra na sua rotina? Em que momento do dia, da semana ou do mês ele aparece?”
  • “Se eu acompanhasse você por um dia típico, em que momentos eu veria esse trabalho acontecendo?”

Validar e refinar o job funcional principal

O job funcional deve expressar o que o executor está tentando realizar, de forma relativamente estável e sem mencionar a solução.

A entrevista normalmente parte de um “job funcional candidato” definido na preparação. O papel da entrevista é validar essa formulação, ajustar seu nível de abstração ou substituí-la por outra que represente melhor o que o executor tenta realizar. 

Boas práticas:

  • tratar o job de entrada como hipótese, não como definição final; 
  • formular o job com verbo de ação e objeto;
  • evitar mencionar produto, tecnologia, fornecedor ou canal;
  • distinguir atividade operacional de job mais amplo;
  • verificar se o job continua válido mesmo que a solução atual mude;
  • capturar o vocabulário do executor de forma fiel antes de traduzir para a categoria “job”; 
  • observar se diferentes atores têm o mesmo job ou jobs diferentes;
  • separar job principal de jobs de apoio.

Exemplos de perguntas:

  • Não pergunte apenas: “por que você realiza essa atividade?”, melhor perguntar: “o que você precisa garantir quando executa esse processo?”
  • “Quando esse trabalho está concluído, o que mudou na sua operação?”
  • “Se você precisasse explicar para um colega novo qual é exatamente o seu papel aqui, o que você diria?”
  • “O que você precisa garantir quando executa esse processo, independente da ferramenta ou do sistema que você esteja usando?”

 

Explorar circunstâncias

As circunstâncias ajudam a entender quando o job se torna mais importante, difícil ou urgente.

Boas práticas:

  • investigar fatores situacionais e ambientais estáveis: onde, quando, com que volume, em que infraestrutura, com que interfaces;
  • identificar eventos gatilho que ativam ou intensificam o job (falhas, picos de demanda, auditorias, mudanças regulatórias);
  • mapear restrições e recursos: tempo, custo, equipe, competências, acesso a ferramentas e informações;
  • explorar diferenças entre situações rotineiras e situações excepcionais;
  • investigar dependências com outras áreas, fornecedores ou clientes.

Exemplos de perguntas:

  • “Em quais situações essa atividade se torna mais difícil ou mais arriscada?”
  • “O que tem que estar no lugar (pessoas, informação, equipamento etc.) para que esse trabalho aconteça do jeito que deveria?”
  • “Tem algum evento ou situação que dispara esse trabalho de forma diferente do habitual? Uma falha, um pico, uma cobrança que muda tudo?”

 

Identificar outcomes e critérios de sucesso

Em JTBD, é importante entender como o executor avalia se o job foi bem realizado.

Boas práticas:

  • perguntar o que significa sucesso para o executor;
  • identificar critérios usados para avaliar desempenho;
  • distinguir resultado desejado de solução desejada;
  • buscar indicadores mencionados pelo entrevistado;
  • explorar trade-offs entre prazo, custo, qualidade, risco, esforço, segurança e confiabilidade;
  • registrar outcomes na linguagem do cliente, antes de padronizá-los.

Exemplos de perguntas:

  • “Como você sabe que essa atividade foi bem executada?”
  • “No fim do mês, o que você olha para saber se o seu trabalho está indo bem? Que indicador, planilha ou conversa?”
  • “Se você pudesse melhorar uma única coisa nesse resultado (não na ferramenta), o que seria?”
  • “O que ainda incomoda mesmo quando esse trabalho está sendo bem feito?” 

 

Investigar entraves e obstáculos

Os entraves à execução do job revelam oportunidades de inovação.

Boas práticas:

  • perguntar o que atrapalha a realização do job;
  • explorar retrabalhos, atrasos, riscos, erros e exceções;
  • identificar improvisos e controles paralelos;
  • perguntar o que o entrevistado já aceitou como “normal”, mesmo sendo problemático;
  • usar perguntas de incidente crítico para explorar falhas;
  • investigar impactos desses entraves no processo, no cliente e no negócio;
  • quando o entrevistado relatar uma dor, perguntar em que circunstância ela aparece, o que ele faz quando ela ocorre e qual o impacto percebido. 

Exemplos de perguntas:

  • “Conte-me sobre uma vez em que isso não funcionou como deveria.”
  • “Qual a parte desse trabalho que mais consome a sua energia ou a do seu time, mesmo quando dá tudo certo?”
  • “O que costuma dificultar a realização dessa atividade?”
  • “Onde ocorrem mais erros, atrasos ou retrabalhos?”
  • “Quais etapas exigem mais esforço?”
  • “O que mais gera preocupação ou risco?”
  • “Em quais situações essa atividade se torna mais difícil?”

Mapear alternativas concorrentes

No JTBD, a concorrência não se limita a produtos equivalentes.

O entrevistado pode realizar o job com outra ferramenta, outro fornecedor, uma planilha, um processo manual, uma equipe interna, uma adaptação informal ou simplesmente não realizar o job.

Boas práticas:

  • perguntar como o executor resolve isso hoje;
  • identificar soluções formais e informais (gambiarras);
  • investigar substitutos diretos e indiretos;
  • identificar o que ele deixa de fazer porque não existe soluções disponíveis;
  • explorar quando ele aceita uma atividade mal feita porque não existe uma solução que possa ser usada para executá-la;
  • perguntar o que foi tentado antes;
  • entender por que alternativas foram adotadas, abandonadas ou mantidas.
Em B2B industrial, prestar atenção especial ao que o executor deixou de tentar fazer ou tolera como problema aceitável. Essas zonas de não-consumo costumam revelar oportunidades de oferta que não aparecem quando a conversa só explora o que ele já faz. 

Exemplos de perguntas:

  • “O que você faz quando o processo não funciona como deveria?”
  • “Tem alguma planilha, mensagem de WhatsApp, caderno ou rotina informal que ajuda a fazer esse trabalho acontecer fora dos sistemas oficiais?, ou seja, existem rotinas informais, soluções improvisadas ou paralela?”
  • “Tem alguma coisa que você sabe que deveria fazer, mas hoje deixa de fazer porque não vale o esforço ou não tem solução adequada?”
  • “Tem algum problema que você já aceitou como inevitável?”
  • “O que você gostaria de fazer, mas hoje não consegue fazer adequadamente?”

 

Detectar outros stakeholders relevantes durante a entrevista

Em ambientes B2B, o sucesso do job de um executor depende quase sempre de outros atores. A entrevista é uma fonte primária para identificá-los, mesmo quando o foco é um único executor.

Este tópico complementa a prática “Ampliar a amostra por indicações de entrevistados” da seção com as boas práticas genéricas de entrevistas empáticas para compreensão do cliente.

Boas práticas:

  • quando o entrevistado mencionar outra pessoa, área, fornecedor ou decisor de forma recorrente, registrar o nome e o papel;
  • distinguir três tipos: quem influencia a realização do job, quem avalia o resultado sem executá-lo, e quem tem job próprio relacionado que merece registro JTBD separado;
  • perguntar quem ganha ou perde quando o job é bem realizado e quem reclama quando dá errado;
  • investigar conflitos de critério entre áreas (operação vs. financeiro, técnico vs. comercial). Esses conflitos costumam revelar stakeholders com agendas próprias;
  • registrar candidatos a JTBD próprio para investigação posterior, sem tentar cobri-los na mesma entrevista.

Exemplos de perguntas:

  • “Quem mais precisa que esse trabalho dê certo? Quem aparece quando ele dá errado?”
  • “Quem decide o orçamento, o contrato ou as ferramentas que você usa para esse trabalho?”
  • “Tem alguém da sua equipe ou de outra área que enfrenta dificuldades parecidas com as suas nesse processo, mas a partir de um ângulo diferente?”

 

Investigar aspectos emocionais e sociais (que raramente são verbalizados)

Em B2B industrial, aspectos emocionais e sociais aparecem quase sempre de forma indireta. Não é comum o executor dizer “eu tenho medo de errar”. Esses sinais aparecem nas entrelinhas, nas justificativas defensivas e na forma como ele fala de exposição diante de pares e superiores.

Boas práticas:

  • prestar atenção a silêncios, hesitações, justificativas espontâneas e mudanças de tom;
  • observar quando o entrevistado fala de “ficar mal diante de”, “ser cobrado por”, “depender de fulano” ou “ser responsabilizado se”;
  • explorar como ele quer ser visto pelos colegas, gestores, clientes ou fornecedores;
  • investigar receios concretos: expor falhas, depender de poucos especialistas, comprometer a operação, perder credibilidade;
  • separar a motivação estratégica óbvia (“bater meta”, “garantir operação”) dos aspectos emocionais menos verbalizados, que costumam diferenciar oportunidades de valor;
  • não preencher esses aspectos por inferência apressada; quando o sinal não estiver claro, registrar como hipótese para validação.

Exemplos de perguntas:

  • “Quando esse trabalho dá errado, o que é mais incômodo para você? O problema operacional em si ou como você fica diante da equipe e da gestão?”
  • “Tem alguma parte desse trabalho em que você sente que está exposto, dependendo de alguém ou de algo que você não controla totalmente?”
  • “Como você gostaria que seus pares e a liderança enxergassem o seu papel nesse processo? E o que faz com que essa imagem fique ameaçada?”

 

Explorar forças de mudança

Quando o objetivo for entender a adoção de uma solução, a troca de fornecedor ou mudança de solução, vale investigar as forças que levaram o cliente a mudar ou resistir à mudança.

Boas práticas: 

  • identificar o que empurrou o cliente para buscar uma alternativa;
  • investigar o que atraiu o cliente para a nova solução;
  • identificar receios, riscos e barreiras de mudança;
  • compreender o que prendia o cliente à solução anterior;
  • entrevistar também ex-usuários, não consumidores e clientes que recusaram a solução.

Exemplos de perguntas:

  • “O que te fez começar a procurar uma alternativa para o jeito antigo de fazer isso?”
  • “Quando você considerou mudar e não mudou, o que segurou a decisão?”
  • “Se você imaginar a melhor solução possível chegando amanhã, o que mais te preocuparia em trocar pelo que você usa hoje?”

 

Material de apoio

Aqui você pode fazer download do “MF.MAP0084 – Guia_Entrevista_JTBD_B2B”, que resume em duas páginas:

Você pode imprimir e plastificar (se necessário) este guia para uso em campo. Nele há dois QRcodes para você acessar via seu celular essas duas seções da flexM4i, caso queira consultar algum detalhe dessas práticas.

 

 

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