Lean Canvas

Modelo para representar uma startup na sua fase inicial

flexM4I > abordagens e  práticas > Lean Canvas (versão 1.0)
Autoria: Fernando Antônio Forcellini ([email protected])  

Introdução 

O Lean Canvas foi desenvolvido por Ash Maurya como uma adaptação do conhecido Business Model Canvas de Alexander Osterwalder. A principal motivação de Maurya foi responder às limitações enfrentadas por startups em estágios iniciais, que frequentemente não dispõem de informações suficientes para preencher componentes relacionados a processos, recursos ou parcerias — típicos de modelos de negócios já operacionais.

Ao observar que muitas startups falhavam tentando estruturar seus modelos como se já estivessem em funcionamento, Maurya concebeu uma ferramenta orientada para o experimento. Ele parte do princípio de que uma startup é, essencialmente, uma hipótese de negócio a ser testada. O Lean Canvas, portanto, foca nos riscos e incertezas mais relevantes no início da jornada empreendedora.

Os exemplos ilustrativos no meio do texto estão em itálico nesta cor.

Áudio: conceitos introdutórios e comparação com o Business Model Canvas em formato de conversa.

Quando você deveria utilizar Lean Canvas

O Lean Canvas é especialmente útil nas fases iniciais, mesmo antes da elaboração de um plano de negócios. Ele funciona como uma ferramenta exploratória para que o time empreendedor teste hipóteses, aprenda com o mercado e adapte sua proposta de valor de forma rápida e fundamentada.

Em vez de descrever uma operação consolidada, como tende a acontecer no Business Model Canvas, o Lean Canvas propõe uma estrutura voltada ao aprendizado e à validação progressiva do modelo de negócio — característica essencial em ambientes de alta incerteza, como o das startups.

O Lean Canvas é ideal para: 

  • Startups e projetos em fase inicial.
  • Criação de novos produtos ou serviços.
  • Validar hipóteses e iterar rapidamente sobre o modelo de negócio.

Por que você deveria utilizar Lean Canvas

O Lean Canvas é um quadro de uma página, criado para estruturar e validar ideias de negócio de startups e projetos em estágio inicial. Ele substitui um plano de negócios tradicional, focando na rápida identificação do problema, clientes, solução e validação de hipóteses, usando um formato conciso de nove blocos essenciais.

O principal objetivo do Lean Canvas é fornecer aos empreendedores uma ferramenta para documentar, testar e refinar rapidamente um modelo de negócio, otimizando a utilização de recursos e impulsionando o aprendizado contínuo.

Características

As principais modificações introduzidas em relação ao Business Model Canvas de Alexander Osterwalder. incluem:

  •  Foco no problema: o Lean Canvas começa com a identificação clara dos problemas do cliente, reconhecendo que compreender profundamente essas dores é essencial antes mesmo de pensar em soluções ou estruturas organizacionais (embora alguns empreendedores optem por começar pelo segmento de clientes).
  • Substituição de componentes operacionais: em vez de exigir definição precoce de parceiros-chave, atividades principais ou recursos críticos, o Lean Canvas introduz componentes como métricas-chave, vantagem injusta, problema e solução, mais condizentes com a realidade de uma startup em fase de descoberta.
  •  Estrutura enxuta e iterativa: a proposta é capturar, em uma única página, os elementos mais arriscados da ideia de negócio, o que possibilitará sua experimentação e ajuste com base em aprendizados constantes.
Veja uma entrevista do autor do Lean Canvas (5:49), quando ele esteve no Brasil, contando quais foram as motivações para criar essa ferramenta e também quais as principais características dela.

Descrição resumida - visão geral

A próxima figura ilustra o template do Lean Canvas. Atente para numeração colocada. Essa é uma possibilidade de sequência de preenchimento dos componentes, mas há outras possibilidades, como descrevemos mais adiante.

Figura 1382b: template do Lean Canvas

Aplicação do lean canvas na criação de startups

A fase inicial de uma startup

A fase inicial de uma startup é denominada de Problem/Solution Fit, cujo objetivo é demonstrar que existe um problema relevante para um segmento de clientes claramente definido e que a ideia de solução proposta tem encaixe (fit) suficiente para resolver essa dor de forma superior às alternativas atuais.

 O Lean Canvas desempenha um papel fundamental nesta fase, buscando verificar se existe um problema significativo que necessita de solução e se a proposta atual da startup efetivamente resolve esse problema.

 O Lean Canvas reúne um conjunto mínimo de dados, informações e conhecimentos que descrevem se a ideia do produto ou serviço a ser desenvolvido entrega valor aos clientes externos e se representa um negócio promissor ou não para a startup. Inclui a ideia, o problema, o segmento de mercado, e outras informações.

Por onde iniciar uma Startup?

Existem diferentes situações possíveis em que uma startup pode iniciar a sua jornada. 

  • Se inicialmente tem-se uma Ideia de produto e/ou serviço para ser desenvolvido numa startup, deve-se num primeiro momento procurar identificar qual(is) segmento(s) de cliente(s) reconhecem nesta ideia a solução de um problema relevante.
  • Podemos ter inicialmente uma Ideia de produto e/ou serviço associada a um determinado Cliente, situação que torna necessário que seja verificado se a ideia proposta resolve um problema relevante do cliente específico. 
  • Outra possibilidade é iniciar com Problema e uma Ideia de produto e/ou serviço para solucioná-lo. Esta situação implicará numa verificação ou identificação de qual(is) segmento(s) de cliente(s) reconhecem este problema como relevante, e na ideia inicial uma solução deste problema. 
  • Startups podem ser iniciadas a partir da percepção de um determinado Problema ou dor de um Cliente específico. Nestes casos, as primeiras ações de uma startup devem buscar comprovar se o cliente reconhece o problema e posteriormente identificar ou propor uma ideia que represente a solução daquele problema do cliente.
Leia mais na flexM4i sobre Artefatos iniciais da inovação.

Sequência de preenchimento do Lean Canvas

A sequência de preenchimento dos campos do Lean Canvas varia de acordo com o autor.

A sequência apresentada a seguir foi definida pela prática de aplicação do Lean Canvas pelo Prof. Forcellini, autor desta seção.

 

Campo 1 — Problema

Liste os três principais problemas enfrentados por esse segmento. O objetivo é garantir que o problema realmente exista e seja relevante o suficiente para justificar uma solução.  Inclua também as soluções alternativas já utilizadas por esses clientes, se existirem, obviamente. Depois você vai comparar a sua solução com essas alternativas para definir o diferencial da sua proposta (componente 9: vantagem única diferencial).

Problema é a dor prioritária do cliente — uma situação indesejada, frequente e relevante, cuja solução gera valor percebido superior às alternativas atuais.

Para declarar um problema, sugerimos que você escreva em uma linha, de forma concreta e mensurável:

  • Quem sente a dor (segmento/persona);
  • O que acontece (dor + contexto/ocorrência);
  • Porque isso importa (impacto/risco/custo);
  • Como lidam hoje (alternativas existentes) — para comparação posterior

Modelo sugerido:
[Persona/segmento] enfrenta [dor específica] em [contexto de uso], o que resulta em [impacto mensurável]; hoje utiliza [alternativas atuais] com [limitações].

Exemplo:
Engenheiros de processos em fábricas de bens duráveis perdem tempo e geram retrabalhos ao reconfigurar layouts de linha durante trocas de produto, resultando em atrasos e custos extras; hoje usam planilhas e desenhos manuais, com baixa atualização e pouca validação em campo.

Campo 2 — Segmento de clientes

Identifique os grupos de pessoas ou empresas que mais se beneficiariam da sua solução. Busque descrever personas com base em comportamentos, necessidades e dados demográficos.

Lembre-se de que cada segmento pode demandar um canvas diferente.

“Segmento de Clientes” e “Problema” são interligados, porém não são validados da mesma forma. Muitas equipes começam pelo Segmento para então identificar problemas reais; outras partem do Problema e, depois, mapeiam quem o sente. Ambas as sequências são válidas, mas exigem evidências distintas para validação.

Validação indireta (Problema → Segmento). Ao comprovar que um problema prioritário existe, com alternativas atuais insuficientes, você reduz o espaço de segmentos possíveis, pois passa a buscar quem de fato vive essa dor. Essa validação é “indireta” do segmento via evidências obtidas na validação do campo do problema. Isso está representado na figura abaixo pela ligação entre “problema validado” e “segmento que sente a dor”.

Figura 1410: Fluxo de Validação: Problema → Segmento de Clientes.

Os dois campos estão interligados mas não são validados da mesma forma. Ou seja, precisamos avançar com o preenchimento dos campos para validar novamente o segmento de clientes

Lembre-se: “O segmento de clientes não é apenas quem sofre a dor, mas quem sofre, valoriza a solução, está disposto a pagar e pode ser alcançado.” (use este enunciado como checklist de elegibilidade do segmento).

O Fluxo de Validação: Problema → Segmento de Clientes pode ser visto na figura 1410:

Como declarar (uma linha).
[Persona/segmento] em [contexto], com [características-chave] e [processo de acesso/compra].

Exemplo.
Gerentes de manutenção em plantas de bens duráveis, responsáveis por trocas frequentes de layout, com rotina digital no chão de fábrica e orçamento anual definido, acessíveis via associações setoriais e eventos técnicos.

Aqui seria bom empregar uma combinação dos métodos:

– Mapa de stakeholders para identificar quem deveria ser analisado para levantamento

  de requisitos ou para não esquecer stakeholders relevantes para a proposta e
–Método Persona para caracterizar melhor e de forma mais focada quem são os

  clientes.

Campo 3 — Proposta de valor

Expresse, de forma clara e direta, o principal motivo pelo qual os clientes escolheriam sua solução em vez das alternativas. Sua proposta deve comunicar um benefício percebido e desejado pelo segmento-alvo.

A Proposta Única de Valor (PUV) é a mensagem central e diferenciadora que explica, de forma única, clara e convincente, por que sua solução vale a pena para um cliente específico — isto é, qual benefício entrega, para quem, e por que é melhor do que as alternativas. É uma hipótese de valor a ser validada nos ciclos do Lean Startup. Deve ser curta, memorável e centrada no benefício-chave percebido pelo cliente.

Como obter

A partir do Problema nº 1 e do Segmento de Clientes (foco nos early adopters) elaborar a PUV na linguagem dos clientes. Em seguida, teste a mensagem em entrevistas, questionários, landing pages, anúncios e protótipos, medindo sinais de aderência (interesse, compreensão, intenção de uso/pagamento) e refinando a formulação. 

Métodos que ajudam a definir a elaborar a PUV.

  • Canvas da Proposta de Valor (Peter Thomson): mapeie tarefas, dores e ganhos; conecte benefícios, características e experiência.
    O modelo de Peter J. Thomson introduz uma abordagem mais centrada no comportamento humano: ele acrescenta o componente ‘experiência’ à proposta e explora desejos, medos e motivações emocionais — algo menos enfatizado no Value Proposition Designer de Osterwalder. No link indicado, Thomson compara seu canvas ao Business Model Canvas e ao modelo clássico de proposta de valor, e depois aprofunda a aplicação com exemplos práticos.

Exemplo: “A [Solução] ajuda [Segmento] a [resultado desejado] ao [mecanismo/diferencial principal].”

  • 3 perguntas (Harvard Business School): Quais clientes? Quais necessidades? Qual preço relativo?
    A Harvard Business School traduz a proposta única de valor em três perguntas estratégicas que vão além de listar atributos do produto ou serviço. Elas ajudam a conectar segmento, necessidade e preço de forma integrada, evidenciando a lógica competitiva que sustenta a estratégia. Esse olhar vai além da descrição de características, convidando o leitor a refletir sobre a diferenciação real no mercado.

Exemplo: “A [Solução] ajuda [Segmento] a [resultado desejado] ao [mecanismo/diferencial principal].”

  • Fórmula de Steve Blank: “Ajudamos (X) a fazer (Y) fazendo (Z)” — destila benefícios, não só features.
    A fórmula de Steve Blank traz clareza imediata à sua proposta, ao condensar cliente, resultado e abordagem em uma única frase. Em vez de enumerar recursos, ela força você a expressar benefício real, quem se beneficia e como. No link indicado, há exemplos práticos que mostram como traduzi-la em frases que ressoam com o cliente.

Exemplo: “A [Solução] ajuda [Segmento] a [resultado desejado] ao [mecanismo/diferencial principal].”

  • Venture Hacks High-concept pitch: “X para Y” (auxilia clareza inicial, não substitui a PUV).
    O High Concept Pitch resume sua proposta em uma frase simples, usando comparações com marcas ou modelos já conhecidos.Esse recurso cria associação imediata e ajuda o público a entender rapidamente o que você faz e qual é o seu diferencial. No link indicado, você encontrará orientações e exemplos para aplicar a técnica com precisão.

Exemplos: “o Airbnb dos eventos corporativos’ ou ‘o Spotify da educação’.

  • Matriz competitiva + copywriting orientado a benefícios: destaque o que é único e importante para o cliente.
    A proposta via value proposition matrix posiciona seus benefícios exclusivos frente às principais dores do cliente — mapeando de que forma você resolve o que seus concorrentes não resolvem. Em vez de “o que é”, ela comunica por que vale mais para quem importa. No link indicado, há um modelo simples que ajuda a conectar necessidade + benefício com clareza.

Existem diferentes métodos e templates para estruturar matrizes competitivas, cada um com seus próprios conceitos. Do ponto de vista de marketing, esse exercício é valioso porque permite visualizar como sua proposta de valor única se contrapõe às dos concorrentes, reforçando o que a torna única. Nos links a seguir, você encontrará exemplos práticos e abordagens alternativas. 

https://www.contify.com/resources/blog/competitive-matrix/
https://www.contify.com/resources/blog/competitive-matrix/
https://blog.mystrika.com/the-secret-weapon-for-crafting-killer-value-propositions/ 

Exemplo (estrutura + aplicação).
Estrutura: “A [Solução] ajuda [Segmento] a [resultado desejado] ao [mecanismo/diferencial principal].”
Aplicação: “O FlowFactory ajuda engenheiros de processos em fábricas de bens duráveis a reduzir retrabalho em mudanças de layout ao permitir simulação rápida e validação no chão de fábrica.”

Campo 4 — Solução

No Lean Canvas, Solução é o conjunto mínimo de benefícios/funcionalidades (features) capazes de entregar a PUV e resolver os problemas priorizados — nada além do necessário para aprender rápido com clientes reais (MVP).

Como obter

Parta das evidências de Problema e da PUV e escreva hipóteses de features “essenciais”. Com estas hipóteses elabore um MVP para validar as hipóteses por meio de entrevista da solução, capturando reações, objeções e “o que falta”; teste também o preço da  solução. 

Métodos que ajudam.

  • Entrevista da Solução (roteiro curto): recepção → contexto do problema → MVP → teste de preço → pedido (permite/indica retorno e referências).
  • Demonstrações e protótipos (baixa/alta fidelidade) para visualizar o “como” sem construir tudo.
  • MVP tipo 1 (baixa fidelidade) e MVP tipo 2 (alta fidelidade): validar interesse/uso com o mínimo funcional; pode incluir landing page, vídeo, teste A/B, concierge/Mágico de Oz, protótipo digital/físico.
  • Experimentos rápidos: entrevistas, questionários, shadowing, usabilidade/dogfooding, smoke tests.
Leia mais na flexM4i sobre Produto Mínimo Viável (MVP).

Exemplo:
Solução mínima para “reconfiguração rápida de layouts”:

  1. Editor visual de layout com validação básica; 
  2. Simulação rápida de fluxo; 
  3. Checklist de troca com registro de tempo e retrabalho.

 

Campo 5 — Canais

Canais são os caminhos para alcançar, envolver, vender e entregar sua proposta de valor ao cliente (comunicação, distribuição e vendas). Eles moldam a jornada: descoberta → avaliação → compra → entrega/suporte. 

Como obter 

Parta do Segmento e do Problema/PUV e formule de 2–3 ideias de canais que combinem com os hábitos de compra do cliente. Priorize, no início: gratuito vs. pago, inbound vs. outbound, direto/manual antes de automatizar, e retenção antes de indicação.

Métodos que ajudam:

  • Mapa da Jornada do Cliente (do 1º contato ao pós-venda) para localizar pontos de impacto.
  • Experimentos rápidos: conteúdo inbound (SEO/vídeo + prova social), parcerias setoriais, eventos/webinars, vendas diretas.

Exemplo:
Para gerentes de manutenção B2B: Conteúdo inbound (artigos/vídeos sobre troca rápida de layout) → Webinar com demo + CTA de piloto de 14 dias → Follow-up direto para conversão.
Métricas: visita → lead, presença em webinar, solicitações de piloto, taxa de fechamento.

Campo 6 — Modelo de receitas

Definição. Representa como a startup gera dinheiro por segmento de cliente (transacional ou recorrente) e como precifica (fixo ou dinâmico). Perguntas-guia: o que o cliente paga hoje? como paga? quanto está disposto a pagar?

Como obter

Parta das alternativas atuais listadas no bloco Problema para ancorar preço; formule 2–3 hipóteses de cobrança (ex.: assinatura, taxa de uso, comissão, licenciamento) e teste cedo — cobrar é validação de valor. O preço é parte do produto e define seu cliente; se pretende cobrar, cobre desde o primeiro dia (em piloto, pré-venda ou oferta limitada). 

Métodos que ajudam.

  • Entrevista de preço (disposição a pagar, forma de pagamento, comparação com alternativas).
  • Experimentos: landing page com planos, concierge/Mágico de Oz, teste A/B de preço/embalagem, pré-venda.
  • Mecanismos de preço: tabela fixa, por feature, por volume, negociação, revenue management, leilão/tempo real.
  • Métricas: conversão → pagantes, CAC vs. LTV, churn, ticket médio, participação por fluxo. 

Exemplo:
Para plataforma B2B de manutenção: Comissão (2–10% por ordem concluída) ou Assinatura (R$ 9,90–R$ 99/mês, por perfil) + Ads segmentados; validar com teste de preço ancorado nas alternativas atuais e piloto pago com 10 clientes.

Validação específica do Segmento

A validação indireta deve ser complementada com mais evidências para que se possa validar o segmento.

Depois, valide quem compõem o segmento-alvo por meio de testes do mercado utilizando critérios observáveis (perfil, contexto de uso, processo de compra) Deste teste resulta o tamanho e a relevância do mercado. 

Figura 1411: Fluxo de validação de um segmento 

Após testar o mercado e obter uma primeira noção de tamanho e relevância, o próximo passo é validar o acesso aos clientes por meio de canais viáveis. Não basta identificar quem sofre a dor e se interessaria pela solução; é preciso garantir que existam caminhos reais para alcançar esses clientes, seja através de canais diretos, digitais ou parceiros. Essa validação mostra se a proposta de valor tem condições práticas de chegar ao público.

Em paralelo, é necessário avaliar a disposição para pagar, conectando a análise ao modelo de receitas. Aqui, não se trata apenas de confirmar que o cliente reconhece o valor, mas de verificar qual formato de monetização (assinatura, venda unitária, licenciamento, freemium, etc.) se alinha com suas expectativas e comportamento de compra. Esse passo fecha o ciclo entre a proposição de valor, os canais e a captura de valor.

Com canais de acesso viáveis e um modelo de receitas validado pela disposição real de pagamento, é possível atualizar e consolidar o segmento de mercado. Nesse momento, o segmento deixa de ser apenas uma hipótese inicial e se transforma em um mercado-alvo real, sustentado por evidências de dor confirmada, acesso efetivo, disposição para pagar e adequação da proposta de valor. Essa validação fecha a primeira rodada de aprendizado, mas pode levar a ajustes no modelo de receitas ou nos canais. Quando isso acontece, o segmento é revisitado e refinado até alcançar consistência e robustez.

Campo 7 — Modelo de custos

A Estrutura de Custos descreve todos os custos incorridos para operar o modelo de negócios (fixos e variáveis) e entregar a PUV com margem saudável. Foque em modelar “do zero”, não em previsões longas.

Como obter

Liste os custos operacionais atuais necessários para descobrir clientes, construir e lançar MVP/MMP/MMR, e manter a operação; use esses insumos com os fluxos de receita para estimar o ponto de equilíbrio (tempo, dinheiro, esforço). 

Métodos que ajudam.

  • Hipóteses de custo → experimento → decisão (ex.: comparar freelancers vs. no-code; medir CAC real em microcampanhas; testar hospedagem gratuita antes de escalar). 
  • Foco no presente: quanto custa entrevistar 30–50 clientes e lançar MVP/MMP? mapeie fixos/variáveis e 
  • Unir receitas + custos para priorizar o modelo inicial (breakeven como critério). 

Exemplo:
Estrutura de Custos mínima para plataforma B2B em piloto:

  1. Desenvolvimento do MVP (160 h × R$65) — considerar alternativa no-code; 
  2. CAC de teste (R$1.000 em anúncios → 100 leads);  
  3. Infra de hospedagem gratuita até 500 usuários;
  4. Suporte inicial via chatbot.

(Use: custo estimado → resultado do experimento → ajuste; recalcular breakeven a cada iteração.)

Campo 8 — Métricas-chave

Métricas são valores mensuráveis usados para acompanhar o desempenho da startup ao longo do ciclo de vida do cliente. No Lean, priorize métricas acionáveis (que ligam causa→efeito) e evite métricas de vaidade (números que “embaçam” decisões). Use o teste dos “3 A’s”: Acionáveis, Acessíveis e Auditáveis. 

Como obter. Proponha as métricas a partir das hipóteses mais arriscadas do seu canvas (Problema, PUV, Canais, Receita). Para cada hipótese, defina um sinal observável e um limiar de decisão (ex.: “≥30% completam onboarding em 7 dias”). Estruture por funil AARRR (Aquisição, Ativação, Retenção, Receita, Recomendação) e valide com cortes. 

Métodos que ajudam.

  • Funil AARRR: escolha 1–2 métricas-chave por etapa (ex.: CTR/visitas; % que completam onboarding; % que retornam D+7/D+30; LTV, CAC, ARPU; NPS/convites por usuário). 
  • Quadro Hipótese → Experimento →R esultado → Decisão: transforma cada métrica em aprendizado validado. 
  • Dashboards simples + análises por coorte: garantem acessibilidade e auditoria contínua. 

Exemplo:
Ativação: % de novos usuários que completam o onboarding em 7 dias → meta inicial: ≥30%; se <30%, testar tutorial e reduzir campos do cadastro; medir novamente na próxima coorte.

Campo 9 — Vantagem única (diferencial)

É a assimetria difícil de copiar ou comprar que faz “você” ganhar mesmo quando a concorrência tenta imitá-lo (ex.: dados proprietários, IP/patentes, efeitos de rede, parcerias/territórios exclusivos, marca/comunidade). Diferente da vantagem competitiva (efeito no mercado), a unfair é a causa estrutural. 

Como obter. Faça um levantamento de possíveis assimetrias reais. Para cada ideia, escreva hipóteses testáveis que conectem a unfair a resultados (ex.: “acesso exclusivo a dados ⇒ +30% conversão proposta→contrato”). Valide com evidências e registre tempo para copiar. 

Métodos que ajudam.

    • Teste de bolso (unfair?): dá para copiar em 6–12 meses? dá para comprar/contratar no mercado? fortalece com escala (rede/aprendizado)? há exclusividade legal/contratual? 
    • Métricas de evidência: % de warm intros/parcerias exclusivas, cobertura de dados proprietários, share de tráfego de marca, cláusulas de exclusividade/lock-in, tempo para copiar. 
    • Framework MILES (Money, Intelligence & Insights, Location/Luck, Education/Expertise, Status).
    • Canva da Vantagem diferencial.

Exemplo:
“Acesso exclusivo a dados operacionais de planta piloto + patente concedida no algoritmo de predição + co-inovação com OEM líder” ⇒ barreiras contratuais/legais, prova quantitativa de valor e sinal de marca que encurtam ciclo de vendas e sustentam margem.

Outras sequências de preenchimento são possíveis

Veja no YouTube, o autor do Lean Canvas explicar como preencher o formulário (22:59).

A sequência de números que Ash Maurya coloca em uma imagem do template no vídeo é diferente da explicação dele.

Em especial, ele mostra que definir o modelo de receitas logo após a proposta de valor é importante, porque o modelo de receitas (ou seja, como ele vai pagar) influencia a decisão de compra do cliente. Se houver dois produtos semelhantes na percepção do cliente, ele provavelmente irá selecionar o mais barato. 

No entanto, se um dos produtos possuir uma marca já conhecida pelo cliente, sua  percepção e fidelidade influenciarão a escolha.Isso quer dizer, que depois da proposta de valor, definimos a solução e aí então o modelo de receitas.

Defina uma sequência que esteja alinhada com a sua lógica de preenchimento e retorne a campos já preenchidos para aprimorar os seus conteúdos.

Exemplos

Esses exemplos foram desenvolvidos em uma disciplina ministrada pelo Prof. Fernando Forcellini na UFSC.

Startup 3D4PET - próteses e órteses ortopédicas para animais

A 3D4PET é uma startup que desenvolve próteses e órteses ortopédicas personalizadas para animais, projetadas caso a caso e fabricadas por impressão 3D.

 A proposta é oferecer alternativas acessíveis e de qualidade para recuperação e mobilidade dos pets, com projeto CAD customizado conforme a patologia e um fluxo claro de atendimento: pedido → formulário com medidas/imagens → projeto e orçamento → aprovação → impressão → embalagem e envio à clínica. 

Os clientes-pagantes são principalmente os donos de pets, enquanto médicos-veterinários fazem a requisição técnica e a clínica veterinária atua como intermediária/instaladora, ou seja, o produto está necessariamente associado a um profissional habilitado para instalação correta no animal. 

Os adotantes iniciais, também conhecidos como primeiros adeptos (early adopters), incluem clínicas e veterinários que aceitaram testar os casos, apoiando a validação do serviço.

Leia mais na flexM4i sobre primeiros adeptos (early adopters):
– no verbete sobre Abismo da inovação
– na seção sobre Curva S: entendendo os estágios de evolução e difusão da inovação

Abaixo está a representação dessa ideia inicial da startup no Lean Canvas.

Figura 1412: Lean Canvas da Startup 3D4PET (clique na figura para abrir em outra aba)
Fonte: Botelho et al. (2019)

Startup CR - plataforma web para compartilhamento de equipamentos, ensaios e serviços técnicos disponíveis nas universidades

A ideia de produto da Startup CR é uma plataforma web que conecta empresas a laboratórios universitários, permitindo buscar — em poucos cliques — equipamentos, ensaios e serviços técnicos disponíveis nas universidades. 

A proposta resolve a baixa visibilidade dos laboratórios e a dificuldade das empresas em entender e navegar pela burocracia de contratação, centralizando informações padronizadas e oferecendo guias práticos sobre processos institucionais. 

Para os laboratórios, a CR aumenta a ocupação de infraestrutura e atrai projetos; para as empresas, acelera a identificação de soluções e reduz o tempo entre a demanda e o atendimento. 

O diferencial está na experiência orientada à velocidade (cadastro ágil, busca direta e atendimento rápido) e em ações de divulgação focadas em engenheiros de micro e pequenas indústrias.

Inicialmente, o modelo prioriza parcerias com fundações de apoio e expansão progressiva (UFSC → SC → Brasil), com validação já realizada junto a alunos, docentes e fundações, além de um MVP de telas da plataforma.

Abaixo está a representação dessa ideia inicial da startup no Lean Canvas.

Figura 1413: Lean Canvas da Startup da Startup CR (clique na figura para abrir em outra aba)
Fonte: Amaral et al. (2019)

Startup FUT - App para gerenciamento da manutenção de máquinas em PME

Ideia de Produto: Aplicativo para auxiliar no gerenciamento e controle da manutenção de máquinas industriais de micro e pequenas empresas do estado de Santa Catarina.

Permite:

  • a criação de uma rede de contatos entre diferentes prestadores de serviço de manutenção com empresas que não dispõem de um setor responsável pela atividade.
  • intermediar a venda/compra de máquinas usadas. 

Promove assim o acompanhamento do gerenciamento e controle da manutenção de forma contínua.

Abaixo está a representação dessa ideia inicial da startup no Lean Canvas.

Figura 1414: Lean Canvas da Startup FUT (clique na figura para abrir em outra aba)
Fonte: Hoefelmann et al. (2019)

Referências

Amaral, C.; Moraes,  F.; Bertoncini, I.; Martins, L. L.  S.; Forcellini, F. A. (2019). Modelo de Negócio da Startup CR.  Disciplina EMC 410202 – Lean Startup. Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica da UFSC. Florianópolis.

Botelho, C.; Vilemberg E.; Rodrigues, M.; Roedel, S.; Forcellini, F. A. (2019). Modelo de Negócio da Startup 3D4PET.  Disciplina EMC 410202 – Lean Startup. Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica da UFSC. Florianópolis.

Hoefelmann, A. E.; Gregório, J. L.; Amorim, N. C. De; Zenkner, P. A. D.; Forcellini, F. A. (2019). Modelo de Negócio da Startup FUT – Fix Up Tomorrow – Disciplina EMC 410202 – Lean Startup. Programa de Pós-graduação em Engenharia Mecânica da UFSC. Florianópolis.

Pereira, Daniel. (2024). O que é Lean Canvas? Disponível em: https://businessmodelanalyst.com/pt/lona-magra/ Acesso em: 16/10/2025

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